Resenha do livro “Comece pelo porquê” de Simon Sinek

Vivemos em um mundo repleto de complexos fenômenos e, talvez, nosso principal hobby seja o de construir explicações para dar sentido a eles. É exatamente a isto que se propõe o livro de Simon Sinek, ou seja, explicar o fenômeno de organizações, movimentos e pessoas que conseguem influenciar outras pessoas a seguir suas ideias, adotar seus produtos e apoiar suas causas.

Sinek ganhou significatico destaque depois de expor sua teoria em um TED Talk em 2009 (que já tem mais de 50 milhões de visualizações) e, desde então, tem levado suas ideias a diversos públicos, de vários setores, em todo o mundo.

A ideia central do livro, como o próprio título deixa claro, é a de que todos os nossos empreendimentos, sejam eles pessoais ou corporativos, devem ter seu início assentado em um claro “porquê”, em um propósito original que dê sentido ao agir. A partir deste “porque”, e sempre alinhado a ele, é que virão o “como” e os “o quês”, os quais servem para dar concretude ao “porquê”.

O autor lança mão de alguns exemplos de sucesso corporativo, como Apple e Harley Davidson, para ilustrar sua tese sobre a importância do porquê, defendendo que, mais do que clientes, estas empresas conquistam adeptos para sua causa, a qual são capazes de manterem-se fiéis ao longo de toda sua trajetória. Há uma argumentação intensa e incisiva de que se você descobrir e seguir seu porquê, então os outros seguirão você. Será mesmo???

Achei a ideia muito bonita e não duvido da crença e nem das nobres intenções de Simon, contudo, vivemos em um mundo cada vez mais individualista e superficial… tenho a triste impressão de que as pessoas tendem a seguir o que mais lhes convém em cada momento, aquilo que aplaca suas paixões e seus apetites imediatos e não algo que esteja relacionado a valores mais elevados ou que demande qualquer tipo de sacrifício ou renúncia.

O livro é interessante e até oferece alguns insights úteis, mas temo que flerte com a ingenuidade ao desconsiderar a complexa rede de causalidades que moldam as grandiosas realizações humanas, bem como a liquidez que tem pautado nossas relações contemporâneas.

abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O enigma de Espinosa” de Irvin D. Yalom

Baruch, Bento, Benedictus… são vários os nomes pelos quais podemos nos referir a Espinosa, de acordo com o idioma que se prefira adotar. Um dos principais nomes da filosofia moderna, suas ideias revolucionaram a forma de pensar da humanidade e influenciaram muitos outros filósofos e pensadores. Viveu uma vida curta e bastante modesta e isolada, resultado do choque que suas ideias causaram em uma sociedade supersticiosa e intolerante, contudo, certamente ele diria que as coisas foram como só poderiam ter sido.

O livro adota um estilo já característico do autor, empregado em outras obras suas, como “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer”, e que consiste em entremear uma história muito bem elaborada com as ideias e parte da vida do filósofo. No caso de Nietzsche, ele próprio é o protagonista do romance, apresentando diretamente suas ideias e reflexões. Já Schopenhauer e sua filosofia pessimista surgem como modelo e resposta propostos por um dos personagens da história para os problemas que emergem em sua vida e na vida daqueles que o cercam.

Em “O enigma de Espinosa”, Yalom alterna entre duas histórias, separadas no tempo e no espaço, mas que se cruzam pela força das ideias. De um lado, temos uma espécie de mini biografia romanceada de Espinosa, acompanhada de uma pequena parte de sua impactante filosofia. De outro, acompanhamos a evolução de um dos ícones do nazismo, o escritor e político alemão Alfred Ernst Rosenberg, conselheiro de Hitler e principal teórico das ideias antisemitas que fundamentaram o Holocausto.

Com muita habilidade e inteligência, Yalom nos brinda com uma narrativa rica e sedutora, explorando toda a inquietação que as ideias de Espinosa provocam em Rosenberg. Ao mesmo tempo, somos também impactados pelas diversas formas de manifestação do ódio e da ignorância ao longo da história. Não há dúvida de que a perseguição e o extermínio em massa de Judeus pelos Nazistas foi um dos maiores e mais horrendos crimes já cometidos na Humanidade, contudo, a excomunhão de Espinosa por parte de sua comunidade judaica não deixa de ter sua raiz na intolerância e na incapacidade de legitimar o outro, com suas ideias e modo de vida diferentes do considerado “correto” ou “melhor”.

“O Enigma de Espinosa” é um livro sensível e impactante sob vários aspectos. Além de uma sempre necessária lembrança do potencial terror dos regimes totalitários, ele também serve como uma belíssima introdução ao profundo e fundamental pensamento de Baruch Espinosa, ao qual vale a pena dedicarmos tempo e atenção, sobretudo se desejamos ampliar nossas possibilidades de compreensão e intervenção no mundo.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Calma” (The School of Life)

Quando li o famoso livro de Daniel Goleman, Inteligência Emocional, fui formalmente apresentado a uma poderosa distinção, o “sequestro emocional” (aquele momento crucial em que a amígdala cortical assume o controle de nossas reações antes que nosso neocórtex tenha a chance de avaliar minimamente a situação). As explicações de Goleman lançaram uma necessária luz sobre determinados comportamentos que, eventualmente, eu demonstro e dos quais não me orgulho.

Os sequestros emocionais geralmente não acabam bem pois o impulso de atacar o outro pode até ter sido útil para a sobrevivência de nossos ancentrais mais remotos, mas não combina muito com a vida moderna em uma sociedade dita civilizada e, seguramente, não é a melhor forma de zelar pelas nossas relações.

Há algum tempo, venho me esforçando para trilhar uma jornada de aprendizagem e evolução, buscando aprimorar minha autoconsciência, minha autoregulação e minha capacidade de empatia (não por acaso, alguns dos pilares do modelo de Inteligência Emocional proposto por Goleman). Meu propósito é ser uma presença mais positiva no mundo, contribuindo para que, de alguma forma, ele seja um lugar melhor. Neste sentido, tenho procurado beber de diversas fontes e, recentemente, pesquisando sobre o trabalho realizado pela The Scholl of Live São Paulo, acabei me deparando com este título tão sugestivo.

Trata-se de um livro curto, dividido em apenas quatro capítulos. Os três primeiros exploram algumas das possíveis causas de nossos arroubos emocionais: nossos relacionamentos amorosos, o comportamento das outras pessoas e nosso ambiente de trabalho. Em cada um destes contextos, são exploradas situações cotidianas que costumam abalar nossa serenidade, bem como são apresentadas interpretações alternativas para que tais fenômenos não se transformem em gatilhos para os tão indesejáveis sequestros emocionais.

Já o capítulo quatro foca no outro lado desta balança emocional: as potenciais fontes de ampliação ou manutenção de nossa calma. Nossos sentidos (visão, audição e tato) são apresentados como potenciais canais para aquietar nossa mente e dissipar nossas augústias e inquietudes. Da mesma forma, um olhar mais amplo para o passado, para nossa história, também é uma das formas sugeridas para se alcançar a serenidade. O texto nos lembra que a humanidade já passou por muitos períodos difíceis, mas que, de um jeito ou de outro, sempre conseguimos seguir adiante.

“As notícias já foram muito piores e, no fim, deu tudo certo… sempre houve líderes decepcionantes e magnatas gananciosos. Sempre houve ameaças existenciais à raça e à civilização humana. Não faz sentido, e é uma forma de narcisismo, imaginar que nossa época tenha algum tipo de monopólio da perversidade ou do caos.”

A conclusão proposta é a de que o atingimento de um estado de calma e tranquilidade depende fundamentalmente de nossas escolhas, nem sempre fáceis.

“Calma” é um livro simples e objetivo e, apesar de sua abordagem relativamente superficial, nos brinda com algumas ideias bastante úteis para avançarmos na busca pela manutenção da compostura e da cabeça no lugar, mesmo diante de um mundo cada vez mais conturbado.

abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig

Caros amigos, escrevo este post ainda fortemente impactado pela leitura deste livro, concluída há poucas horas. Não é, definitivamente, um livro comum ou só mais uma leitura “interessante”… Trata-se de uma jornada profunda e altamente reflexiva pela alma humana e pelos castelos, aparentemente sólidos, de nosso conhecimento. Mas quem melhor que seu próprio criador para nos apresentar sua obra??? Em um texto complementar, anexado à edição comemorativa dos 25 anos de lançamento de ZAMM (Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas), Robert Pirsig assim caracteriza seu texto, recusado por mais de cem editores antes de ser aceito e lançado por uma pequena editora, para então alcançar o status de best-seller com mais de 5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo:

“Zen e a arte da manutenção de motocicletas são essencialmente três livros: o relato de uma viagem de moto de Minnesota à Califórnia, uma meditação filosófica sobre o conceito de Qualidade e a história de um homem perseguido pelo fantasma de seu eu anterior. Nesses três livros encontramos alegorias e tensões psicológicas, uma lição sobre as escolas de pensamento do Oriente e do Ocidente, uma charada sobre o sentido da existência, um comentário sobre a paisagem física e social dos Estados Unidos e algumas dicas bastante úteis sobre a manutenção de uma motocicleta.”

Dotado de uma estrutura altamente complexa e cuidadosamente elaborada, o livro leva o leitor a uma profunda imersão na mente do protagonista, seus conflitos, angústias, fugas e contradições. O estilo de narrativa em primeira pessoa é a estratégia usada pelo autor para realizar este feito. É por meio do olhar enviesado do narrador que conhecemos Fedro (o fantasma que o atormenta) e sua conturbada jornada em busca do conhecimento, contra a hipocrisia das instituições…

“Sentia ele (Fedro) que as instituições, como as escolas, igrejas, governos e organizações políticas de toda espécie, tendem a direcionar o pensamento para outras finalidades que não a verdade: para a perpetuação de suas funções e para a subordinação dos indivíduos a essas funções.”

“Quando você é educado para desprezar ‘o que lhe agrada’, torna-se um servo muito mais obediente – um excelente servo. Quando aprende a não fazer ‘ o que lhe agrada’, o Sistema passa a amá-lo.”

…e contra a ignorância e a superficialidade dos indivíduos…

“Para as ovelhas, Qualidade é o que o pastor diz. E, se você levar um ovelha para o alto das montanhas à noite, com o zunir do vento, a ovelha entrará em pânico e balirá desesperadamente até o pastor chegar, ou chegar o lobo.”

“Fedro visualiza essas almas sozinhas, à noite, depois de tirar os sapatos, as meias e as roupas de baixo que lhes foram vendidas bem caro pela propaganda, a contemplar, através de fuligem que se acumula nas janelas, as cascas grotescas que além destas se revelam – quando a pose se desfaz e a verdade se apresenta, a única verdade que existe aqui, a clamar aos céus: meu Deus, aqui não há nada a não ser este néon sem vida, este cimento e estes tijolos!”

A profunda investigação sobre a Qualidade, um dos três pilares do livro, brinda o leitor com poderosas reflexões filosóficas e complexas análises acerca das tradicionais estruturas de pensamento que moldam o padrão de comportamento da sociedade. Ao longo de sua jornada, enriquecedora e turbulenta, Fredo conclui que a Qualidade, seu objeto de pesquisa e verdadeira obcessão, é a causa geradora de sujeitos e objetos e não uma mera consequência derivada destes. Como tal, a Qualidade não é passível de definição e jamais se submeteria às convenções da tal Igreja da Razão (como Fedro chamava as tradicionais Instituições de Ensino).

“Em nosso estado orgânico altamente complexo, nós, organismos avançados, respondemos ao nosso ambiente inventando muitas analogias maravilhosas. Inventamos a terra e o céu, as árvores, as rochas e o mar, os deuses, a música, as artes, a linguagem, a filosofia, a engenharia, a civilização e a ciência. Damos a essas analogias o nome de realidade. E elas são a realidade. Em nome da verdade, hiponotizamos nossos filhos para levá-los a saber que elas são a realidade. Os que não aceitam essas analogias, nós os colocamos num hospício. Porém, o que nos leva a inventar as analogias é a Qualidade. A Qualidade é o estímulo contínuo que o ambiente nos impõe para criar o mundo em que vivemos: o mundo todo, em cada uma de suas partes.”

Além da instigante jornada intelectual, o leitor acompanha também uma bela jornada territorial, ao longo das estradas e diversas paisagens dos Estados Unidos, de pai e filho, dividindo a mesma motocicleta, mas emocionalmente separados por anos de aflições, desencontros e frustrações. Porém, a grata surpresa é descobrir que, ao final, o que cura tais feridas não é a prevalência da aparente normalidade que caracteriza a vida presente do pai, mas sim o retorno de Fedro, este sim a presença paterna genuína da qual o filho tanto sentia a falta.

“Evidentemente, as aflições nunca acabam. Enquanto estivermos vivos, estaremos fadados a padecer a infelicidade e o sofrimento, mas tenho agora um sentimento que não tinha antes e que não está apenas na superfície das coisas, mas penetra até o fundo: vencemos. Agora, tudo vai melhorar. Dá para sentir essas coisas.”

ZAMM é uma obra atemporal, capaz de nos fazer refletir sobre as questões mais profundas da humanidade, com extrema levaza e com humor. É, seguramente, um daqueles livros que merecem ser lidos pelo maior número possível de pessoas.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido” de Philippa Perry

Esta obra, de título longo e pouco convencional, chegou até mim por meio do perfil da School of Life Brasil, a quem sigo no Instagram. Por conta do lançamento do livro, a autora, que também é psicoterapeuta há mais de 20 anos, realizou alguns seminários, promovidos pela instituição e divulgados em suas redes sociais.

Ao longo dos últimos anos, tenho trabalhado para aprimorar as competências para o exercício daquela que julgo ser a minha mais importante missão: a paternidade. Minha formação em Coaching Ontológico no Território Appana foi um movimento profundo e fundamental neste sentido e, desde então, tenho intensificado a busca por conteúdos e reflexões que me auxiliem a me tornar o pai que meus filhos merecem.

“Todos os pais querem acertar na educação dos filhos para que, essencialmente, eles sejam felizes. Apesar de óbvio, esse não é um objetivo simples.”

O texto de Philippa é instigante e, ao mesmo tempo, de uma simplicidade encantadora. A partir de suas experiências pessoais e profissionais ela apresenta aos leitores uma abordagem sobre a criação dos filhos totalmente focada na construção de relações saudáveis e verdadeiras. Ela argumenta que grande parte de nossos comportamentos como pais tem origem nas experiências que vivenciamos como filhos e nas rupturas que experienciamos em nossas relações com aqueles que nos criaram. Tais rupturas, segunda ela, se não forem adequadamente reparadas podem comprometer a qualidade de nossa relação com nossos filhos, gerando uma série de disfunções que, com frequência, vislumbramos no seio das famílias.

Além da questão do legado que recebemos de nossos pais, o livro aborda também o impacto do ambiente que proporcionamos às crianças, bem como a importância da inteligência emocional para a construção e manutenção de nossas relações. A autora trabalha o cultivo destas relações desde o período da gravidez, passando pelos desafios adaptativos a uma nova rotina com um bebê e às demandas por atenção e cuidado que vão, naturalmente, mudando, à medida que as crianças crescem.

Aspectos como comunicação, birras, limites, mentiras e a relação com filhos jovens e adultos são também objeto de consideração e análise por parte da autora, sempre de forma leve e serena, buscando oferecer alternativas de observação e ação que contribuam para solução dos conflitos e o fortalecimento dos vínculos entre pais e filhos.

Ao meu ver, trata-se de uma obra extremente útil e valiosa para aqueles que almejam exercer uma paternidade/maternidade mais consciente, construindo relações sólidas e, sobretudo, baseadas no amor e na confiança mútua com seus filhos. Me parece ser este um bom caminho para que nossas crianças possam crescer saudáveis e felizes em um mundo cada vez mais desafiador.

grande abraço,

Marcelo Mello, pai do Gabriel e da Maria Benedita.

Minha pergunta a Deus

Ontem, enquanto navegava meio sem rumo pelo mar de conteúdos do YouTube, acabei sendo contemplado com um trecho de uma entrevista do grande escritor paraibano Ariano Suassuna.

Quando indagado se ele acreditava em Deus, prontamente respondeu que sim e explicou que não seria capaz de ver sentido em um mundo com tanta crueldade e dor sem a existência de Deus. Mas o que mais me chamou a atenção foi a citação, ou melhor, a belíssima declamação de um poema que ele utilizou para ilustrar seu raciocínio:

Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

As perguntas acima, expressas de forma tão sublime pelo poeta Leandro Gomes de Barros, refletem muito fortemente minhas próprias inquietudes acerca de Deus e de seu papel neste mundo. Hoje, não tenho convicção de que Deus seja uma necessidade, contudo, tal qual Ariano, penso que todo o mal e a infindável carga de sofrimento que assolam nossa humanidade colocam em xeque a própria existência de Deus e, sem dúvida alguma, se eu tivesse a oportunidade de com ele conversar, seria esta a natureza dos meus questionamentos.

abraço,

Marcelo Mello

Onde estaremos quando tudo isso passar?

Caros amigos, estamos vivenciando um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas. A pandemia global do coronavírus tem gerado um cenário de medo, sofrimento e incerteza sem precedentes em nossa história recente. As autoridades ao redor do mundo buscam compreender a extensão da crise e todos os seus impactos, ao mesmo tempo que precisam tomar decisões extremamente difíceis e, cujos efeitos colaterais, são altamente preocupantes.

“Essa tempestade vai passar. Mas as escolhas que fizermos agora podem mudar nossas vidas nos próximos anos.” (Iuval Noah Harari)

São inúmeras as dúvidas que todos temos acerca de quais caminhos adotar para superação deste trágico evento, contudo, em que pese a urgência que este cenário impõe, algumas perguntas de mais longo prazo começam a surgir: que mundo teremos quando isso ocorrer? Quais os impactos de nossas decisões imediatas? O que queremos preservar e o que desejamos mudar em nosso modo de vida? Na esteira destas questões, gostaria de compartilhar aqui um artigo que li no site Papo de Homem e que foi publicado (originalmente) no Financial Times pelo filósofo e escritor israelense Yuval Noah Harari, autor dos best sellers Sapiens e Homo Deus. Com a perspicácia e profundidade características de seus livros, ele nos brinda com um texto brilhante, que nos leva a uma necessária reflexão sobre o impacto de nossas escolhas como sociedade para o futuro da humanidade.

Artigo “o mundo após o coronavírus”

Espero que usufruam desta leitura e que as ideias de Yuval possam, de alguma maneira, lhes ajudar a enfrentar esta tempestade sem perder de vista a bonança que, esperamos todos, virá.

abraço fraterno,

Marcelo Mello

O que dá sentido ao texto…

Meus amigos,

se eu tivesse que resumir meu curso de Mestrado em uma única frase, seguramente ela seria: “o que dá sentido ao texto é o contexto”. A primeira vez ouvi isso foi em uma das aulas iniciais da disciplina de GRO – Gestão de Relacionamentos nas Organizações. Um professor de voz tranquila e olhar sereno (que viria a se tornar meu orientador e melhor amigo) proferiu estas palavras de forma tão simples e natural que, num primeiro momento, eu não dei a devida importância. Contudo, com o passar do tempo e o aprofundar das minhas reflexões, compreendi o quão poderosa é esta sentença, dadas todas as possibilidades que ela encerra.

Entre o que alguém fala e o que outro escuta, existe uma lacuna significativa (por vezes, um abismo) que impõe severos riscos à efetividade das conversações. Uma das formas para se tentar diminuir tal lacuna é por meio da construção de um contexto compartilhado, no qual as informações intercâmbiadas possam encontrar amparo.

“O fenômeno da comunicação não depende daquilo que se entrega, mas sim do que se passa com quem recebe. E isto é algo muito diferente do que a mera transmissão de informação.” (Humberto Maturana)

O ambiente organizacional é predominantemente conversacional. Em um nível mais operacional, são constantes as determinações, orientações, direcionamentos, feedbacks e esclarecimentos fornecidos pelos gestores a seus colaboradores. Da mesma forma, são abundantes os pedidos, ofertas, sugestões e reclamações, dos membros da equipe para seus gestores. Para que este constante fluxo de comunicação seja efetivo, ou seja, produza os resultados desejados tanto para a organização quanto para seus indivíduos, é fundamental que as informações façam sentido e, para isso, o contexto é imprescindível. Sem um contexto adequado, a chance de que uma interação venha a produzir resultados indesejados, gerando o que comumente chamamos de “ruídos de comunicação”, é muito grande.

Se analisarmos esta questão num plano mais estratégico, a existência de um contexto compartilhado claro e bem definido se torna ainda mais crucial para a existência da organização, na medida em que a vivência de seu propósito (razão de existir) e o engajamento na busca de seus objetivos estratégicos, por parte das pessoas que a compõem, dependem fundamentalmente da geração de sentido. A motivação (motivo para a ação) somente virá, com a potência necessária, se as pessoas compreenderem para onde estão indo e porque é importante ir naquela direção. É justamente isso que um contexto adequadamente compartilhado pode ajudar a clarificar.

Dedicar-se a construção de contextos compartilhados suficientemente poderosos para tornar efetivas as conversações, sejam elas operacionais ou estratégicas, deve ser uma preocupação cotidiana dos líderes em todos os níveis hierárquicos. Neste sentido, é imprescindível cuidar com extremo zelo do que se diz e do que se faz, a todo instante. Incoerência, desrespeito, confusão, desatenção, falta de reconhecimento, entre outras posturas, além de totalmente inadequadas, são verdadeiros pecados capitais, que minam a confiança nas relações e destroem (rapidamente) qualquer possibilidade de existência de um contexto adequado para suportar as interações e a coordenação de ações entre os diversos atores do cenário organizacional.

As pessoas, sobretudo nesta era do conhecimento e de profunda transformação digital que vivemos, demandam por sentido, propósito e valorização. Se tais demandas não forem adequadamente atendidas, dificilmente as organizações conseguirão que seus times superem os complexos desafios de nosso tempo e construam o futuro do qual elas dependem para prosperar.

Feliz Natal,

Marcelo Mello

Das tripas coração (Humberto Gessinger)

Hoje pela manhã, no caminho de casa para o trabalho, estava eu absorto em reflexões sobre as diversas e fascinantes possibilidades que a vida constantemente nos apresenta, ainda bastante impactado por uma conversa (como de costume) profunda e significativa com meu amigo e mestre Gentil Lucena. Neste momento, uma canção começou a tocar no som do carro e, com fascinante sincronicidade, se integrou completamente aos pensamentos e sentimentos que me tomavam. Este é o contexto e esta é a canção:

“Águas passadas não movem moinhos. Águas paradas também não…”

Abraço,

Marcelo Mello