"Democracia em Vertigem" ou, como é importante refletirmos sobre os rumos de nosso país

Ontem assisti ao documentário “Democracia em Vertigem” da cineasta Petra Costa, recém indicado ao Oscar, que causou furor nas redes sociais quando de seu lançamento e que voltou aos holofotes, agora que concorre ao maior prêmio do cinema mundial.

Não sou especialista em cinema, mas minha percepção como espectador é de uma obra extremamente bem realizada e plasticamente bela. Ao longo de pouco mais de duas horas, somos presenteados com sequências muito bem montadas, ângulos cuidadosamente escolhidos e uma narração carregada de emoção, para contar não uma história qualquer, mas a nossa história como país e de como nossa jovem democracia tem sido duramente golpeada.

A narrativa entrelaça eventos históricos com a própria trajetória de vida da Diretora e de sua família. Seus depoimentos, bem como os de sua mãe adicionam ao filme uma sensibilidade fascinante e demonstram como os caminhos e descaminhos de uma nação impactam fortemente a vida das pessoas.

Filha de militantes de esquerda que lutaram na clandestinidade contra a ditadura militar brasileira, Petra não esconde sua visão de mundo e suas preferências políticas, contudo, ao contrário do que tem propagado seus ferrenhos críticos, não há invenções ou distorções de fatos no documentário. As alianças espúrias do PT em prol da governabilidade, bem como as graves denúncias de corrupção dos governos Lula e Dilma são apresentadas de forma clara e transparente. Também são evidenciadas as diversas falhas da Presidenta Dilma, tanto na esfera econômica como na política, assim como o peso das imensas manifestações populares na reta final do processo de Impeachment. Ao mesmo tempo, o filme relembra os diversos mandos e desmandos do então juiz Sérgio Moro e do Ministério Público do Paraná durante a Operação Lava Jato, sobretudo, no processo que viria a condenar o ex-Presidente Lula e explora as (podres) entranhas do Congresso Nacional, em suas manobras moralmente questionáveis e suas posturas hipócritas.

O filme de Petra Costa é uma obra profunda e impactante, que merece ser vista e analisada, sem preconceitos ideológicos e livre das amarras geradas por esta polarização estúpida e limitante que nosso país tem vivenciado. Ou aprendemos a dialogar e conviver, com respeito e civilidade, ou corremos o risco de ver sucumbir nossa Democracia que já se encontra em forte vertigem…

grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro "O mundo que não pensa" de Franklin Foer

Recentemente fiz uma busca pelo termo “Sapiens”. Meu intuito era verificar o preço da edição impressa do best seller de Yuval Noah Harari, “uma breve história da humanidade”. Eis que, dentre os resultados apresentados, surgiu este livro, com seu título provocativo e com um alarmante subtítulo que realmente capturou minha atenção: “a humanidade diante do perigo real da extinção do homo sapiens”. Acabei comprando o livro, cuja leitura conclui em poucos dias.

Trata-se de um texto muito fluído e agradável. O autor apresenta seus argumentos de forma clara e objetiva, incluindo várias histórias e personagens para consolidar e exemplificar seu ponto de vista.

O fio central do livro é uma aguda crítica as mega corporações de tecnologia de nossa era. Sem meias palavras, Foer detona o excessivo poder, o monopólio da informação e do comércio digital, bem como o desrespeito à privacidade de seus clientes e usuários, por parte das gigantes Amazon, Google e Facebook. O autor também explora a intensa desvalorização do trabalho intelectual de escritores e produtores de conteúdo fomentado pelos modelos de negócio extremamente agressivos destas empresas.

“[Os algoritmos] tomam decisões sobre nós e em nosso nome. O problema é que quando terceirizamos o raciocínio para as máquinas, na verdade estamos terceirizando o raciocínio para as organizações que operam as máquinas.”

O autor chama a atenção para os riscos de tais corporações estarem acumulando incríveis quantidades de dados sobre nossos interesses, hábitos e preferências, acabando por nos conhecer melhor que nós mesmos e adquirindo uma perigosa e antiética capacidade de influência sobre o destino de nossas vidas e sobre os rumos de nossa sociedade.

“Os algoritmos são um problema novo para a democracia. As empresas de tecnologia se vangloriam, sem muita vergonha, de como conseguem conduzir os usuários a um comportamento mais virtuoso – como nos induzem a clicar, ler, comprar ou até votar. São estratégias muito poderosas, porque não vemos a mão que nos conduz. Não sabemos como a informação foi moldada para nos instigar.”

O livro de Foer é praticamente um manifesto contra o conformismo e a alienação de nosso livre arbítrio em troca da comodidade e simplificação oferecidas pelos algoritmos determinam o que lemos, compramos, com quem interagimos e, em última instância, o que pensamos sobre o mundo. É também um grito em defesa do papel da imprensa como alicerce da democracia e da valorização do trabalho intelectual, o qual, segundo ele, tem sido destruído pelas garras cruéis do mercado. Neste ponto, o autor pode soar um tanto o quanto utópico e saudosista (de seu tempo como editor de uma tradicional revista impressa), contudo, creio que não devemos desconsiderar seus argumentos, os quais merecem de nós ao menos uma sincera reflexão: que valor damos à nossa liberdade e à nossa privacidade?

um grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O mundo de Sofia” de Jostein Gaarder

Este romance norueguês, publicado originalmente em 1991 (e que já foi traduzido para mais de 60 idiomas) entrou no meu radar de leituras após meu interesse pela filosofia tem sido despertado durante minha formação em Coaching Ontológico no Território Appana. Em minhas pesquisas sobre livros de filosofia, acabei me deparando com este título, sobre o qual já tinha ouvido falar, mas nunca devotei atenção.

É importante ressaltar que não se trata de uma obra de referência sobre filosofia, mas sim de um romance que transita, de forma bastante leve, pela história do pensamento ocidental, abordando desde os filósofos clássicos, como Sócrates e Platão, passando pela Idade Média e pelo Renascentismo, explorando também pensadores racionalistas como Descartes e Baruch Espinosa, empiristas como Locke e Hume, bem como nomes consagrados nas ciências como Marx, Darwin e Freud.

É interessante destacar que esta viagem pela história da filosofia se dá dentro das histórias de Sofia e Hilde, duas garotas prestes a completar 15 anos, e cujos caminhos e mundos se cruzam em meio a reflexões filosóficas e existenciais. Cada situação vivida pelas protagonistas é, em algum grau, uma tentativa de responder à questões que instigam os pensadores desde a antiguidade: como o mundo foi criado? Existe vida após a morte? Como devemos viver? Refletir e buscar respostas coerentes para estas e outras questões é o grande desafio apresentado à Sofia, à Hilde e aos leitores que acompanham sua jornada.

“A única coisa de que necessitamos para ser filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas.”

Trata-se de uma leitura bastante agradável e interessante para quem quer ter um panorama geral da história do pensamento filosófico, funcionando como um ponto de partida para futuros aprofundamentos em períodos, correntes filosóficas e pensadores específicos. Seguramente é uma obra que gostaria que meus filhos lessem.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Um poema sobre a tristeza

Acolha a tristeza

Triste é não escutar a tristeza.

Existem lições que

só ela pode ensinar.

Triste é escolher

ignorar a sabedoria.

Triste é falsificar a felicidade.

É entristecer a felicidade.

Triste é não reconhecer

o outono e o inverno das coisas.

Por isso escolha ouvir.

Sente nas folhas douradas

que estão no chão.

Aprenda as lições que estão na voz

silenciosa de um momento triste.

Ali também há sabedoria.

E, quando essas lições são aprendidas, há paz.

Há gratidão.

Paz em saber que a vida

é repleta de estações.

Gratidão por ter aprendido

as lições, e agora os pés

podem seguir em frente.

Já é primavera.

Zack Magiezi, poeta – @zackmagiezi

via revista Vida Simples – ed. 210, pág. 58

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Comunicação não-violenta” de Marshall B. Rosenberg

O tema da comunicação não-violenta tem ganho considerável espaço no meio organizacional ao longo dos últimos anos. Seus conceitos e práticas tem sido objeto de estudo e (tentativas de) aplicação em diversas organizações que buscam aprimorar suas relações e construir ambientes de trabalho e negócios mais efetivos e sustentáveis.

Eu já havia ouvido o termo CNV algumas vezes, tanto em minha organização, quanto referenciado em textos e notícias no mercado em geral, contudo, foi durante minha formação em Coaching no Território Appana que tive oportunidade de conhecer e interagir com pessoas que já conheciam e até mesmo trabalhavam com este assunto. Isto fez com que meu interesse pelo tema crescesse e que eu incluísse o livro de Marshall Rosenberg em minha lista de leituras.

Marshall Bertram Rosenberg (1934 – 2015) foi um psicólogo americano que desenvolveu o processo da CNV em 1963, tendo-o aplicado e aprimorado desde então. Segundo a página do CNVC (Center for Nonviolent Communication), organização sem fins lucrativos fundada por Marshall, seu método de comunicação já foi objeto de treinamento e aplicação em mais de 60 países, visando a resolução de conflitos tanto em organizações (dos mais variados setores), quanto em núcleos familiares.

“Em um mundo violento, cheio de preconceitos e mal-entendidos, buscamos ansiosamente soluções. Pois a boa comunicação é uma das armas mais poderosas, econômicas e de fácil aplicação.

Segundo seu criador, o processo da CNV está fundamentado em quatro componentes:

  1. Observação;
  2. Sentimento;
  3. Necessidades;
  4. Pedido.

De forma resumida, primeiramente devemos observar o que está ocorrendo, sem nenhum julgamento prévio. Em seguida, identificamos como estamos nos sentindo em relação àquela situação. Na sequência, buscamos identificar a quais de nossas necessidades estes sentimentos estão conectados e, por fim, formulamos um pedido específico visando atender a estas necessidades.

Ao longo de sua obra, o autor explora e detalha cada uma destas etapas do processo, exemplificando situações e sugerindo possíveis cursos de ação para colocar em prática a CNV. De forma simples e eficaz, Marshall demonstra todo o potencial desta abordagem para a construção e/ou restauração das relações em quaisquer esferas da vida.

“Para além das nossas ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” (Rumi)

Apesar de ter sido concebida há quase seis décadas, a CNV me parece extremamente atual e pertinente. Em um mundo cada vez mais individualista, polarizado e intolerante, é fundamental que possamos encontrar mecanismos para a promoção de empatia e de uma verdadeira conexão entre os seres humanos, independentemente de suas culturas, crenças ou hábitos individuais. Sem isso, corremos o sério risco de sermos os responsáveis por nossa própria extinção.

fraterno abraço,

Marcelo Mello

E a vida?

“Viver é o grande desafio, mas é preciso que o fascínio da vida possa nos seduzir, nos embriagar, nos fortalecer para que sejamos capazes de empreender as grandes jornadas em direção a nós mesmos e ao mundo. A arte é um antídoto para o sofrimento, somente a arte nos torna capazes de afirmar a vida com todas as suas contradições e desconhecimentos.”

Viviane Mosé em Nietzsche Hoje.

Nietzsche e a Complexidade

Meus amigos,

ao contrário do que o título deste post possa dar a entender, não pretendo aqui apresentar nenhuma análise da relação entre a filosofia de Nietzsche e os conceitos inerentes à teoria da complexidade.   O objetivo aqui é tão somente compartilhar minhas principais impressões e destaques acerca de dois livros cuja leitura conclui recentemente: “Quando Nietzsche chorou” de Irvin Yalom e “As paixões do ego” de Humberto Mariotti.

O livro de Irvin Yalom é um clássico mundial e retrata o fictício encontro entre dois personagem reais: o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o médico austríaco Josef Breuer. Enquanto Nietzsche e sua avassaladora filosofia dispensam maiores apresentações, é importante destacar que Breuer foi contemporâneo e amigo de Sigmund Freud, tendo exercido significativa influência na concepção e desenvolvimento dos fundamentos da psicoterapia. Aliás, o livro explora bastante a relação entre Breuer e Freud, à época ainda um médico em início de carreira.

Os belíssimos diálogos que se desenvolvem entre Nietzsche e Breuer revelam uma complexidade emocional e uma profundidade intelectual fascinantes. Nietzsche vai  bradando, com gradativa intensidade, seu impiedoso martelo filosófico, promovendo a destruição dos ídolos e das ilusões de Breuer. Este, por sua vez, vai delineando, por meio da cuidadosa observação do comportamento de Nietzsche e de intervenções delicadamente planejadas, os conceitos fundamentais do que viria a ser a prática da psicologia. E tudo isso ocorre em meio a um complexo processo de construção de confiança e afetos mútuos.

Sem dúvida alguma, “Quando Nietzsche chorou” é um daqueles livros cuja leitura é capaz de incitar reflexões profundas e, me arrisco dizer, transformações significativas na estrutura do leitor.

Quando Nietzsche chorou

 

 

“…odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia.” (Friedrich Nietzsche)

 

 

 

 

 

As paixões do ego

 

 

“Discordando, concordando na aparência, ou apenas fingindo ouvir, o propósito é sempre o mesmo: negar a existência do interlocutor que questiona, afastar a possibilidade de que ele possa trazer algo novo e útil – fugir à diferença, enfim.” (Humberto Mariotti)

 

Já a obra de Humberto Mariotti, denominada “As paixões do ego”, tem como tema central o pensamento complexo e, ao longo do texto, o autor apresenta inúmeras distinções relacionadas e que compõem um grande panorama sobre este tema. Agregando as ideias de importantes pensadores como Gregory Bateson, Edgar Morin, Humberto Maturana, Francisco Varela, David Bohm, entre outros, Mariotti analisa o pensamento linear, característico de da cultura patriarcal, bem como sua alternativa sistêmica, não com o intuito de confrontá-los, mas sim de propor o caminho da complementariedade entre ambos os modelos, o que, segundo ele, resultaria no que ele distingue como pensamento complexo.

À luz do pensamento complexo, Mariotti aborda questões sociais, políticas e éticas, suscitando reflexões profundas e bastante pertinentes para nossa sociedade. Dois pontos, ao meu ver, merecem maior destaque:

1) Automatismo do modelo concordo/discordo: Mariotti alerta para a os riscos de reagirmos de forma automática e instantânea em nossas interações classificando o que ouvimos em “concordo” ou “discordo” sem abrir espaço para uma escuta sincera e uma reflexão mais profunda;

2) Os cinco saberes do pensamento complexo: segundo o autor, para se viver em plenitude o pensamento complexo, é preciso saber ver, saber esperar, saber conversar, saber amar e saber abraçar;

Sem dúvida alguma, a obra de Humberto Mariotti é extremamente útil e recomendada para quem deseja iniciar uma exploração do tema da complexidade e suas distinções relacionadas, o que me parece bastante pertinente em um mundo em constante ebulição como o que vivemos hoje.

 

grande abraço,

 

Marcelo Mello