O deus de Espinoza

Baruch Espinoza foi um filósofo racionalista holandês, cuja construção filosófica é considerada uma das mais relevantes da filosofia moderna. Sua concepção de Deus é um dos pilares de todo seu pensamento e foi a razão de boa parte da rejeição e perseguição que sofreu durante sua vida.

Hoje não tenho mais convicção acerca da existência de Deus, contudo, se ele existe, a visão de Espinoza me faz muito mais sentido do que as descrições dogmáticas das teologias religiosas tradicionais.

Eis o deus de Espinoza:

Grande e fraternal abraço,

Marcelo Mello

P.S.: para conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Espinoza, recomendo assistir também aos vídeos abaixo:

O que dá sentido ao texto…

Meus amigos,

se eu tivesse que resumir meu curso de Mestrado em uma única frase, seguramente ela seria: “o que dá sentido ao texto é o contexto”. A primeira vez ouvi isso foi em uma das aulas iniciais da disciplina de GRO – Gestão de Relacionamentos nas Organizações. Um professor de voz tranquila e olhar sereno (que viria a se tornar meu orientador e melhor amigo) proferiu estas palavras de forma tão simples e natural que, num primeiro momento, eu não dei a devida importância. Contudo, com o passar do tempo e o aprofundar das minhas reflexões, compreendi o quão poderosa é esta sentença, dadas todas as possibilidades que ela encerra.

Entre o que alguém fala e o que outro escuta, existe uma lacuna significativa (por vezes, um abismo) que impõe severos riscos à efetividade das conversações. Uma das formas para se tentar diminuir tal lacuna é por meio da construção de um contexto compartilhado, no qual as informações intercâmbiadas possam encontrar amparo.

“O fenômeno da comunicação não depende daquilo que se entrega, mas sim do que se passa com quem recebe. E isto é algo muito diferente do que a mera transmissão de informação.” (Humberto Maturana)

O ambiente organizacional é predominantemente conversacional. Em um nível mais operacional, são constantes as determinações, orientações, direcionamentos, feedbacks e esclarecimentos fornecidos pelos gestores a seus colaboradores. Da mesma forma, são abundantes os pedidos, ofertas, sugestões e reclamações, dos membros da equipe para seus gestores. Para que este constante fluxo de comunicação seja efetivo, ou seja, produza os resultados desejados tanto para a organização quanto para seus indivíduos, é fundamental que as informações façam sentido e, para isso, o contexto é imprescindível. Sem um contexto adequado, a chance de que uma interação venha a produzir resultados indesejados, gerando o que comumente chamamos de “ruídos de comunicação”, é muito grande.

Se analisarmos esta questão num plano mais estratégico, a existência de um contexto compartilhado claro e bem definido se torna ainda mais crucial para a existência da organização, na medida em que a vivência de seu propósito (razão de existir) e o engajamento na busca de seus objetivos estratégicos, por parte das pessoas que a compõem, dependem fundamentalmente da geração de sentido. A motivação (motivo para a ação) somente virá, com a potência necessária, se as pessoas compreenderem para onde estão indo e porque é importante ir naquela direção. É justamente isso que um contexto adequadamente compartilhado pode ajudar a clarificar.

Dedicar-se a construção de contextos compartilhados suficientemente poderosos para tornar efetivas as conversações, sejam elas operacionais ou estratégicas, deve ser uma preocupação cotidiana dos líderes em todos os níveis hierárquicos. Neste sentido, é imprescindível cuidar com extremo zelo do que se diz e do que se faz, a todo instante. Incoerência, desrespeito, confusão, desatenção, falta de reconhecimento, entre outras posturas, além de totalmente inadequadas, são verdadeiros pecados capitais, que minam a confiança nas relações e destroem (rapidamente) qualquer possibilidade de existência de um contexto adequado para suportar as interações e a coordenação de ações entre os diversos atores do cenário organizacional.

As pessoas, sobretudo nesta era do conhecimento e de profunda transformação digital que vivemos, demandam por sentido, propósito e valorização. Se tais demandas não forem adequadamente atendidas, dificilmente as organizações conseguirão que seus times superem os complexos desafios de nosso tempo e construam o futuro do qual elas dependem para prosperar.

Feliz Natal,

Marcelo Mello

Das tripas coração (Humberto Gessinger)

Hoje pela manhã, no caminho de casa para o trabalho, estava eu absorto em reflexões sobre as diversas e fascinantes possibilidades que a vida constantemente nos apresenta, ainda bastante impactado por uma conversa (como de costume) profunda e significativa com meu amigo e mestre Gentil Lucena. Neste momento, uma canção começou a tocar no som do carro e, com fascinante sincronicidade, se integrou completamente aos pensamentos e sentimentos que me tomavam. Este é o contexto e esta é a canção:

“Águas passadas não movem moinhos. Águas paradas também não…”

Abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O mundo de Sofia” de Jostein Gaarder

Este romance norueguês, publicado originalmente em 1991 (e que já foi traduzido para mais de 60 idiomas) entrou no meu radar de leituras após meu interesse pela filosofia tem sido despertado durante minha formação em Coaching Ontológico no Território Appana. Em minhas pesquisas sobre livros de filosofia, acabei me deparando com este título, sobre o qual já tinha ouvido falar, mas nunca devotei atenção.

É importante ressaltar que não se trata de uma obra de referência sobre filosofia, mas sim de um romance que transita, de forma bastante leve, pela história do pensamento ocidental, abordando desde os filósofos clássicos, como Sócrates e Platão, passando pela Idade Média e pelo Renascentismo, explorando também pensadores racionalistas como Descartes e Baruch Espinosa, empiristas como Locke e Hume, bem como nomes consagrados nas ciências como Marx, Darwin e Freud.

É interessante destacar que esta viagem pela história da filosofia se dá dentro das histórias de Sofia e Hilde, duas garotas prestes a completar 15 anos, e cujos caminhos e mundos se cruzam em meio a reflexões filosóficas e existenciais. Cada situação vivida pelas protagonistas é, em algum grau, uma tentativa de responder à questões que instigam os pensadores desde a antiguidade: como o mundo foi criado? Existe vida após a morte? Como devemos viver? Refletir e buscar respostas coerentes para estas e outras questões é o grande desafio apresentado à Sofia, à Hilde e aos leitores que acompanham sua jornada.

“A única coisa de que necessitamos para ser filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas.”

Trata-se de uma leitura bastante agradável e interessante para quem quer ter um panorama geral da história do pensamento filosófico, funcionando como um ponto de partida para futuros aprofundamentos em períodos, correntes filosóficas e pensadores específicos. Seguramente é uma obra que gostaria que meus filhos lessem.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Um poema sobre a tristeza

Acolha a tristeza

Triste é não escutar a tristeza.

Existem lições que

só ela pode ensinar.

Triste é escolher

ignorar a sabedoria.

Triste é falsificar a felicidade.

É entristecer a felicidade.

Triste é não reconhecer

o outono e o inverno das coisas.

Por isso escolha ouvir.

Sente nas folhas douradas

que estão no chão.

Aprenda as lições que estão na voz

silenciosa de um momento triste.

Ali também há sabedoria.

E, quando essas lições são aprendidas, há paz.

Há gratidão.

Paz em saber que a vida

é repleta de estações.

Gratidão por ter aprendido

as lições, e agora os pés

podem seguir em frente.

Já é primavera.

Zack Magiezi, poeta – @zackmagiezi

via revista Vida Simples – ed. 210, pág. 58

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Comunicação não-violenta” de Marshall B. Rosenberg

O tema da comunicação não-violenta tem ganho considerável espaço no meio organizacional ao longo dos últimos anos. Seus conceitos e práticas tem sido objeto de estudo e (tentativas de) aplicação em diversas organizações que buscam aprimorar suas relações e construir ambientes de trabalho e negócios mais efetivos e sustentáveis.

Eu já havia ouvido o termo CNV algumas vezes, tanto em minha organização, quanto referenciado em textos e notícias no mercado em geral, contudo, foi durante minha formação em Coaching no Território Appana que tive oportunidade de conhecer e interagir com pessoas que já conheciam e até mesmo trabalhavam com este assunto. Isto fez com que meu interesse pelo tema crescesse e que eu incluísse o livro de Marshall Rosenberg em minha lista de leituras.

Marshall Bertram Rosenberg (1934 – 2015) foi um psicólogo americano que desenvolveu o processo da CNV em 1963, tendo-o aplicado e aprimorado desde então. Segundo a página do CNVC (Center for Nonviolent Communication), organização sem fins lucrativos fundada por Marshall, seu método de comunicação já foi objeto de treinamento e aplicação em mais de 60 países, visando a resolução de conflitos tanto em organizações (dos mais variados setores), quanto em núcleos familiares.

“Em um mundo violento, cheio de preconceitos e mal-entendidos, buscamos ansiosamente soluções. Pois a boa comunicação é uma das armas mais poderosas, econômicas e de fácil aplicação.

Segundo seu criador, o processo da CNV está fundamentado em quatro componentes:

  1. Observação;
  2. Sentimento;
  3. Necessidades;
  4. Pedido.

De forma resumida, primeiramente devemos observar o que está ocorrendo, sem nenhum julgamento prévio. Em seguida, identificamos como estamos nos sentindo em relação àquela situação. Na sequência, buscamos identificar a quais de nossas necessidades estes sentimentos estão conectados e, por fim, formulamos um pedido específico visando atender a estas necessidades.

Ao longo de sua obra, o autor explora e detalha cada uma destas etapas do processo, exemplificando situações e sugerindo possíveis cursos de ação para colocar em prática a CNV. De forma simples e eficaz, Marshall demonstra todo o potencial desta abordagem para a construção e/ou restauração das relações em quaisquer esferas da vida.

“Para além das nossas ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” (Rumi)

Apesar de ter sido concebida há quase seis décadas, a CNV me parece extremamente atual e pertinente. Em um mundo cada vez mais individualista, polarizado e intolerante, é fundamental que possamos encontrar mecanismos para a promoção de empatia e de uma verdadeira conexão entre os seres humanos, independentemente de suas culturas, crenças ou hábitos individuais. Sem isso, corremos o sério risco de sermos os responsáveis por nossa própria extinção.

fraterno abraço,

Marcelo Mello

E a vida?

“Viver é o grande desafio, mas é preciso que o fascínio da vida possa nos seduzir, nos embriagar, nos fortalecer para que sejamos capazes de empreender as grandes jornadas em direção a nós mesmos e ao mundo. A arte é um antídoto para o sofrimento, somente a arte nos torna capazes de afirmar a vida com todas as suas contradições e desconhecimentos.”

Viviane Mosé em Nietzsche Hoje.