Resenha do livro "O mundo que não pensa" de Franklin Foer

Recentemente fiz uma busca pelo termo “Sapiens”. Meu intuito era verificar o preço da edição impressa do best seller de Yuval Noah Harari, “uma breve história da humanidade”. Eis que, dentre os resultados apresentados, surgiu este livro, com seu título provocativo e com um alarmante subtítulo que realmente capturou minha atenção: “a humanidade diante do perigo real da extinção do homo sapiens”. Acabei comprando o livro, cuja leitura conclui em poucos dias.

Trata-se de um texto muito fluído e agradável. O autor apresenta seus argumentos de forma clara e objetiva, incluindo várias histórias e personagens para consolidar e exemplificar seu ponto de vista.

O fio central do livro é uma aguda crítica as mega corporações de tecnologia de nossa era. Sem meias palavras, Foer detona o excessivo poder, o monopólio da informação e do comércio digital, bem como o desrespeito à privacidade de seus clientes e usuários, por parte das gigantes Amazon, Google e Facebook. O autor também explora a intensa desvalorização do trabalho intelectual de escritores e produtores de conteúdo fomentado pelos modelos de negócio extremamente agressivos destas empresas.

“[Os algoritmos] tomam decisões sobre nós e em nosso nome. O problema é que quando terceirizamos o raciocínio para as máquinas, na verdade estamos terceirizando o raciocínio para as organizações que operam as máquinas.”

O autor chama a atenção para os riscos de tais corporações estarem acumulando incríveis quantidades de dados sobre nossos interesses, hábitos e preferências, acabando por nos conhecer melhor que nós mesmos e adquirindo uma perigosa e antiética capacidade de influência sobre o destino de nossas vidas e sobre os rumos de nossa sociedade.

“Os algoritmos são um problema novo para a democracia. As empresas de tecnologia se vangloriam, sem muita vergonha, de como conseguem conduzir os usuários a um comportamento mais virtuoso – como nos induzem a clicar, ler, comprar ou até votar. São estratégias muito poderosas, porque não vemos a mão que nos conduz. Não sabemos como a informação foi moldada para nos instigar.”

O livro de Foer é praticamente um manifesto contra o conformismo e a alienação de nosso livre arbítrio em troca da comodidade e simplificação oferecidas pelos algoritmos determinam o que lemos, compramos, com quem interagimos e, em última instância, o que pensamos sobre o mundo. É também um grito em defesa do papel da imprensa como alicerce da democracia e da valorização do trabalho intelectual, o qual, segundo ele, tem sido destruído pelas garras cruéis do mercado. Neste ponto, o autor pode soar um tanto o quanto utópico e saudosista (de seu tempo como editor de uma tradicional revista impressa), contudo, creio que não devemos desconsiderar seus argumentos, os quais merecem de nós ao menos uma sincera reflexão: que valor damos à nossa liberdade e à nossa privacidade?

um grande abraço,

Marcelo Mello

O que dá sentido ao texto…

Meus amigos,

se eu tivesse que resumir meu curso de Mestrado em uma única frase, seguramente ela seria: “o que dá sentido ao texto é o contexto”. A primeira vez ouvi isso foi em uma das aulas iniciais da disciplina de GRO – Gestão de Relacionamentos nas Organizações. Um professor de voz tranquila e olhar sereno (que viria a se tornar meu orientador e melhor amigo) proferiu estas palavras de forma tão simples e natural que, num primeiro momento, eu não dei a devida importância. Contudo, com o passar do tempo e o aprofundar das minhas reflexões, compreendi o quão poderosa é esta sentença, dadas todas as possibilidades que ela encerra.

Entre o que alguém fala e o que outro escuta, existe uma lacuna significativa (por vezes, um abismo) que impõe severos riscos à efetividade das conversações. Uma das formas para se tentar diminuir tal lacuna é por meio da construção de um contexto compartilhado, no qual as informações intercâmbiadas possam encontrar amparo.

“O fenômeno da comunicação não depende daquilo que se entrega, mas sim do que se passa com quem recebe. E isto é algo muito diferente do que a mera transmissão de informação.” (Humberto Maturana)

O ambiente organizacional é predominantemente conversacional. Em um nível mais operacional, são constantes as determinações, orientações, direcionamentos, feedbacks e esclarecimentos fornecidos pelos gestores a seus colaboradores. Da mesma forma, são abundantes os pedidos, ofertas, sugestões e reclamações, dos membros da equipe para seus gestores. Para que este constante fluxo de comunicação seja efetivo, ou seja, produza os resultados desejados tanto para a organização quanto para seus indivíduos, é fundamental que as informações façam sentido e, para isso, o contexto é imprescindível. Sem um contexto adequado, a chance de que uma interação venha a produzir resultados indesejados, gerando o que comumente chamamos de “ruídos de comunicação”, é muito grande.

Se analisarmos esta questão num plano mais estratégico, a existência de um contexto compartilhado claro e bem definido se torna ainda mais crucial para a existência da organização, na medida em que a vivência de seu propósito (razão de existir) e o engajamento na busca de seus objetivos estratégicos, por parte das pessoas que a compõem, dependem fundamentalmente da geração de sentido. A motivação (motivo para a ação) somente virá, com a potência necessária, se as pessoas compreenderem para onde estão indo e porque é importante ir naquela direção. É justamente isso que um contexto adequadamente compartilhado pode ajudar a clarificar.

Dedicar-se a construção de contextos compartilhados suficientemente poderosos para tornar efetivas as conversações, sejam elas operacionais ou estratégicas, deve ser uma preocupação cotidiana dos líderes em todos os níveis hierárquicos. Neste sentido, é imprescindível cuidar com extremo zelo do que se diz e do que se faz, a todo instante. Incoerência, desrespeito, confusão, desatenção, falta de reconhecimento, entre outras posturas, além de totalmente inadequadas, são verdadeiros pecados capitais, que minam a confiança nas relações e destroem (rapidamente) qualquer possibilidade de existência de um contexto adequado para suportar as interações e a coordenação de ações entre os diversos atores do cenário organizacional.

As pessoas, sobretudo nesta era do conhecimento e de profunda transformação digital que vivemos, demandam por sentido, propósito e valorização. Se tais demandas não forem adequadamente atendidas, dificilmente as organizações conseguirão que seus times superem os complexos desafios de nosso tempo e construam o futuro do qual elas dependem para prosperar.

Feliz Natal,

Marcelo Mello

Não basta apenas sonhar, é preciso agir!

Caríssimos,

lendo o livro Gestión Ontológica de Ivonne Hidalgo e revisando os materiais do módulo de Gestão da Ação Executiva (parte do Programa do DIPLODiplomado Internacional para Logros Organizacionales), do qual tive o privilégio de participar há algumas semanas e sobre o qual escreverei mais detalhadamente aqui em breve, me deparei com um belíssimo poema do escritor e pensador alemão Johann Wolfgang von Goethe:

“Até que estejamos comprometidos, há vacilação,

a possibilidade de retrocesso e a inefetividade.

Com relação a todos os atos de iniciativa e criação

há uma verdade elementar,

cuja ignorância mata incontáveis ideias

e planos esplêndidos: que no momento em que nos

comprometemos definitivamente,

a Providência também dá um passo.

Todo tipo de coisas ocorre para nos ajudar,

que de outra maneira jamais teriam ocorrido.

Uma corrente de eventos, surgidos a partir de nossa decisão,

gera a nosso favor todo o tipo de incidentes

e encontros imprevistos,

e assistência material que nenhum homem jamais poderia ter

sonhado que viria em sua ajuda.

Aquilo que podes fazer, ou sonhas que podes fazer,

COMEÇA!

A audácia tem gênio, poder e magia.

Começa agora!

Meus amigos, penso que a mensagem de Goethe nos convoca a irmos além das expectativas, desejos, sonhos e planos, partindo efetivamente para a ação, seja ela individual ou (provavelmente) coletiva, de forma a construirmos a realidade que almejamos.

Comecemos pois, AGORA, não amanhã ou em “qualquer dia desses”, mas AGORA, a construirmos o futuro que, sentimos, anseia por emergir, e deixemo-nos brindar pelos encontros e sincronicidades que a Providência nos conceder.

Grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Source: The Inner Path of Knowledge Creation” de Joseph Jaworski

Caros amigos,

A ideia deste post é compartilhar com vocês uma breve resenha do livro “Source: The inner path of knowledge creation”, bem como algumas reflexões pessoais sobre esta instigante obra.

Desde que soube que Joseph Jaworski iria lançar um novo livro, fiquei bastante ansioso para saber o que este brilhante autor, que já havia nos brindado com valiosas distinções e insights poderosos em sua obra anterior (“Sincronicidade”, cuja resenha publiquei neste blog – clique aqui para ler), teria a nos dizer agora.

Tão logo o livro foi lançado, adquiri uma cópia em formato eletrônico (ebook) e mergulhei em uma experiência que realmente desafiou significativamente meus paradigmas.

Source

“Source” não é, seguramente, uma obra que possa ser assimilada ou aceita com facilidade, e me arrisco a afirmar que sua compreensão, mesmo que parcial, requer um conjunto prévio de distinções que está longe de ser trivial. Ainda assim, mesmo para aqueles que eventualmente possuam tais distinções, as ideias propostas por Jaworski provavelmente irão a causar algum nível de estranheza e dúvida.

O livro, a exemplo do que já havia ocorrido com sua obra anterior, é escrito basicamente na forma de relatos acerca de experiências vivenciadas pelo autor ao longo de sua vida, desta feita, em uma jornada pessoal que tinha por objetivo responder a duas questões fundamentais: i) Qual a fonte de nossa capacidade para acessar o conhecimento de que necessitamos para agir em um dado momento? ii) Como podemos aprender a ativar tal capacidade, tanto individual quanto coletivamente?

O texto de Jaworski pode parecer, a primeira vista, um tanto o quanto místico e, de fato, a dimensão espiritual se faz presente nas ideias expostas pelo autor. Porém, os conceitos que suportam tais ideias são oriundos de trabalhos de grandes pesquisadores e estudiosos, sobretudo do renomado físico David Bohm, autor de livros como “On Dialogue” e “Wholeness and the Implicate Order”, entre vários outros.

O trabalho de Bohm está fundamentado, entre outras ideias, na premissa de que a base ou essência do Cosmos não é composta de partículas elementares, mas trata-se de puro processo, um fluído movimento do todo, ou seja, Bohm tinha plena convicção de que o Universo todo está intrinsecamente conectado. Para ele, os seres humanos possuem uma capacidade nata para a inteligência coletiva, podendo aprender e pensar juntos e assim coordenar ações de forma efetiva para a modelar o futuro.

Jaworki discorre sobre suas reflexões e descobertas a partir das conversas que manteve com o próprio Bohn, bem como com diversos outros cientistas e estudiosos que trabalharam com ele ou que formam de alguma forma influenciados por suas ideias.

Como resultado de sua longa e profunda jornada, Jaworski formulou quatro princípios que endereçam as questões fundamentais por ele apresentadas, a saber:

1. O universo possui uma característica aberta e emergente;

2. O universo é um todo indivisível; tanto o mundo material quanto a consciência fazem parte de um todo indivisível;

3. Existe uma Fonte criativa de infinito potencial no universo;

4. Os seres humanos podem aprender a criar a partir do infinito potencial da Fonte, desde que decidam seguir um disciplinado caminho rumo à auto-realização e ao amor, esta que é a mais poderosa energia no universo.

Não tenho aqui a pretensão de abordar todas as ideias e conceitos presentes neste livro, até mesmo porque, tenho que confessar, minha compreensão sobre vários deles ainda é parcial e limitada. Contudo, não tenho receio em afirmar que se trata de uma obra revolucionária e que se propõe a desbravar um território pouquíssimo explorado no campo da liderança e da ação humana.

Grande abraço,

Marcelo Mello

Por que é tão importante aprender (constantemente)?

Caros amigos,

compartilho convosco uma possível (e significativa) resposta para a questão acima:

“O século XXI está se caracterizando por promover mudanças cada vez mais rápidas em todos os domínios da vida humana. É assim que o futuro nos aguarda. Tanto indivíduos como organizações se veem cercados pela constante ameaça do descompasso entre o que se sabe e o que se requer saber. Essa ameaça põe em risco a viabilidade dos empreendimentos humanos. Nossas competências tornam-se obsoletas muito rapidamente. A efetividade de nossas ações se vê comprometida. Aquilo que antes resultava em garantia de êxito perde seu poder e converte-se em condição de fracasso. Os acertos do passado se desgastam e são rapidamente imitados por todos. Isso nos leva a perder nossas antigas vantagens competitivas. O surgimento de práticas e produtos mais eficazes muitas vezes é mais rápido que nossa capacidade de absorção.

A resposta a esse desafio chama-se aprendizagem.”

(extraído do livro Coaching Ontológico – A doutrina fundamental, de Homero Reis)

Entendo que não poderiam ser mais acertadas as palavras do grande Alvin Toffler, ao afirmar que “os analfabetos do século XXI não serão os que não souberem ler ou escrever, mas os que não souberem aprender, desaprender e reaprender.”

Grande abraço,

Marcelo Mello

The Tao of Programming: quando ainda havia romântismo no processo de construção de software

Caros amigos,

O post de hoje surgiu de um destes generosos atos de compartilhamento. Um colega de trabalho, que é um daqueles profissionais que une extrema competência e rara solicitude, certa vez colou em uma parede do nosso local de trabalho o texto abaixo, extraído do livro “The Tao of Programming” (clique aqui para ver o texto completo), e gentilmente ainda incluiu sua tradução:

“Technique?” said the programmer turning from his terminal, “What I follow is Tao — beyond all techniques! When I first began to program I would see before me the whole problem in one mass. After three years I no longer saw this mass. Instead, I used subroutines. But now I see nothing. My whole being exists in a formless void. My senses are idle. My spirit, free to work without plan, follows its own instinct. In short, my program writes itself. True, sometimes there are difficult problems. I see them coming, I slow down, I watch silently. Then I change a single line of code and the difficulties vanish like puffs of idle smoke. I then compile the program. I sit still and let the joy of the work fill my being. I close my eyes for a moment and then log off.”

“Técnica?” disse o programador virando-se do seu terminal, “O que eu sigo é o Tao – acima de qualquer técnica! Quando eu comecei a programar eu via na minha frente o problema inteiro em uma única massa. Após três anos eu não via mais a massa. Ao invés disso, eu usava subrotinas. Mas agora eu não vejo nada. Todo meu ser existe num vazio sem forma. Meus sentidos estão desligados. Meu espírito, livre para trabalhar sem planos, seguindo seus próprios instintos. Pra encurtar, meu programa escreve a si próprio. É verdade, as vezes aparecem problemas difíceis. Eu os vejo chegando, eu desacelero, eu observo em silêncio. Então eu mudo uma única linha de código e as dificuldades desaparecem como nuvens de fumaça. Então eu compilo o programa. Eu fico parado e deixo a alegria do trabalho preencher o meu ser. Eu fecho meus olhos por um momento e então faço o logoff.”

Extraído do texto “The Tao of Programming” e

traduzido para o português por Marcos Motta

O texto acima me fez lembrar de um outro colega, já aposentado, que foi um de meus principais tutores quando eu, praticamente recém-formado, comecei a trabalhar com um dos maiores sistemas legados da minha organização. Aprendi muito com ele, mas de tudo o que ele me disse, uma frase me marcou mais do que qualquer outra. Quando a organização iniciou seus primeiro movimentos na direção de estabelecer controles sobre a área de desenvolvimento e ele começou a ser obrigado a produzir documentos padronizados (Write-only) para documentar o processo de construção de software, lembro-me que um belo dia ele virou-se pra mim, deu um grande suspiro e disse: “Vou me aposentar, o romantismo acabou…”

Acho que ele tinha razão…

abraço,

Marcelo Mello