Resenha do livro “Comece pelo porquê” de Simon Sinek

Vivemos em um mundo repleto de complexos fenômenos e, talvez, nosso principal hobby seja o de construir explicações para dar sentido a eles. É exatamente a isto que se propõe o livro de Simon Sinek, ou seja, explicar o fenômeno de organizações, movimentos e pessoas que conseguem influenciar outras pessoas a seguir suas ideias, adotar seus produtos e apoiar suas causas.

Sinek ganhou significatico destaque depois de expor sua teoria em um TED Talk em 2009 (que já tem mais de 50 milhões de visualizações) e, desde então, tem levado suas ideias a diversos públicos, de vários setores, em todo o mundo.

A ideia central do livro, como o próprio título deixa claro, é a de que todos os nossos empreendimentos, sejam eles pessoais ou corporativos, devem ter seu início assentado em um claro “porquê”, em um propósito original que dê sentido ao agir. A partir deste “porque”, e sempre alinhado a ele, é que virão o “como” e os “o quês”, os quais servem para dar concretude ao “porquê”.

O autor lança mão de alguns exemplos de sucesso corporativo, como Apple e Harley Davidson, para ilustrar sua tese sobre a importância do porquê, defendendo que, mais do que clientes, estas empresas conquistam adeptos para sua causa, a qual são capazes de manterem-se fiéis ao longo de toda sua trajetória. Há uma argumentação intensa e incisiva de que se você descobrir e seguir seu porquê, então os outros seguirão você. Será mesmo???

Achei a ideia muito bonita e não duvido da crença e nem das nobres intenções de Simon, contudo, vivemos em um mundo cada vez mais individualista e superficial… tenho a triste impressão de que as pessoas tendem a seguir o que mais lhes convém em cada momento, aquilo que aplaca suas paixões e seus apetites imediatos e não algo que esteja relacionado a valores mais elevados ou que demande qualquer tipo de sacrifício ou renúncia.

O livro é interessante e até oferece alguns insights úteis, mas temo que flerte com a ingenuidade ao desconsiderar a complexa rede de causalidades que moldam as grandiosas realizações humanas, bem como a liquidez que tem pautado nossas relações contemporâneas.

abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O enigma de Espinosa” de Irvin D. Yalom

Baruch, Bento, Benedictus… são vários os nomes pelos quais podemos nos referir a Espinosa, de acordo com o idioma que se prefira adotar. Um dos principais nomes da filosofia moderna, suas ideias revolucionaram a forma de pensar da humanidade e influenciaram muitos outros filósofos e pensadores. Viveu uma vida curta e bastante modesta e isolada, resultado do choque que suas ideias causaram em uma sociedade supersticiosa e intolerante, contudo, certamente ele diria que as coisas foram como só poderiam ter sido.

O livro adota um estilo já característico do autor, empregado em outras obras suas, como “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer”, e que consiste em entremear uma história muito bem elaborada com as ideias e parte da vida do filósofo. No caso de Nietzsche, ele próprio é o protagonista do romance, apresentando diretamente suas ideias e reflexões. Já Schopenhauer e sua filosofia pessimista surgem como modelo e resposta propostos por um dos personagens da história para os problemas que emergem em sua vida e na vida daqueles que o cercam.

Em “O enigma de Espinosa”, Yalom alterna entre duas histórias, separadas no tempo e no espaço, mas que se cruzam pela força das ideias. De um lado, temos uma espécie de mini biografia romanceada de Espinosa, acompanhada de uma pequena parte de sua impactante filosofia. De outro, acompanhamos a evolução de um dos ícones do nazismo, o escritor e político alemão Alfred Ernst Rosenberg, conselheiro de Hitler e principal teórico das ideias antisemitas que fundamentaram o Holocausto.

Com muita habilidade e inteligência, Yalom nos brinda com uma narrativa rica e sedutora, explorando toda a inquietação que as ideias de Espinosa provocam em Rosenberg. Ao mesmo tempo, somos também impactados pelas diversas formas de manifestação do ódio e da ignorância ao longo da história. Não há dúvida de que a perseguição e o extermínio em massa de Judeus pelos Nazistas foi um dos maiores e mais horrendos crimes já cometidos na Humanidade, contudo, a excomunhão de Espinosa por parte de sua comunidade judaica não deixa de ter sua raiz na intolerância e na incapacidade de legitimar o outro, com suas ideias e modo de vida diferentes do considerado “correto” ou “melhor”.

“O Enigma de Espinosa” é um livro sensível e impactante sob vários aspectos. Além de uma sempre necessária lembrança do potencial terror dos regimes totalitários, ele também serve como uma belíssima introdução ao profundo e fundamental pensamento de Baruch Espinosa, ao qual vale a pena dedicarmos tempo e atenção, sobretudo se desejamos ampliar nossas possibilidades de compreensão e intervenção no mundo.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Calma” (The School of Life)

Quando li o famoso livro de Daniel Goleman, Inteligência Emocional, fui formalmente apresentado a uma poderosa distinção, o “sequestro emocional” (aquele momento crucial em que a amígdala cortical assume o controle de nossas reações antes que nosso neocórtex tenha a chance de avaliar minimamente a situação). As explicações de Goleman lançaram uma necessária luz sobre determinados comportamentos que, eventualmente, eu demonstro e dos quais não me orgulho.

Os sequestros emocionais geralmente não acabam bem pois o impulso de atacar o outro pode até ter sido útil para a sobrevivência de nossos ancentrais mais remotos, mas não combina muito com a vida moderna em uma sociedade dita civilizada e, seguramente, não é a melhor forma de zelar pelas nossas relações.

Há algum tempo, venho me esforçando para trilhar uma jornada de aprendizagem e evolução, buscando aprimorar minha autoconsciência, minha autoregulação e minha capacidade de empatia (não por acaso, alguns dos pilares do modelo de Inteligência Emocional proposto por Goleman). Meu propósito é ser uma presença mais positiva no mundo, contribuindo para que, de alguma forma, ele seja um lugar melhor. Neste sentido, tenho procurado beber de diversas fontes e, recentemente, pesquisando sobre o trabalho realizado pela The Scholl of Live São Paulo, acabei me deparando com este título tão sugestivo.

Trata-se de um livro curto, dividido em apenas quatro capítulos. Os três primeiros exploram algumas das possíveis causas de nossos arroubos emocionais: nossos relacionamentos amorosos, o comportamento das outras pessoas e nosso ambiente de trabalho. Em cada um destes contextos, são exploradas situações cotidianas que costumam abalar nossa serenidade, bem como são apresentadas interpretações alternativas para que tais fenômenos não se transformem em gatilhos para os tão indesejáveis sequestros emocionais.

Já o capítulo quatro foca no outro lado desta balança emocional: as potenciais fontes de ampliação ou manutenção de nossa calma. Nossos sentidos (visão, audição e tato) são apresentados como potenciais canais para aquietar nossa mente e dissipar nossas augústias e inquietudes. Da mesma forma, um olhar mais amplo para o passado, para nossa história, também é uma das formas sugeridas para se alcançar a serenidade. O texto nos lembra que a humanidade já passou por muitos períodos difíceis, mas que, de um jeito ou de outro, sempre conseguimos seguir adiante.

“As notícias já foram muito piores e, no fim, deu tudo certo… sempre houve líderes decepcionantes e magnatas gananciosos. Sempre houve ameaças existenciais à raça e à civilização humana. Não faz sentido, e é uma forma de narcisismo, imaginar que nossa época tenha algum tipo de monopólio da perversidade ou do caos.”

A conclusão proposta é a de que o atingimento de um estado de calma e tranquilidade depende fundamentalmente de nossas escolhas, nem sempre fáceis.

“Calma” é um livro simples e objetivo e, apesar de sua abordagem relativamente superficial, nos brinda com algumas ideias bastante úteis para avançarmos na busca pela manutenção da compostura e da cabeça no lugar, mesmo diante de um mundo cada vez mais conturbado.

abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig

Caros amigos, escrevo este post ainda fortemente impactado pela leitura deste livro, concluída há poucas horas. Não é, definitivamente, um livro comum ou só mais uma leitura “interessante”… Trata-se de uma jornada profunda e altamente reflexiva pela alma humana e pelos castelos, aparentemente sólidos, de nosso conhecimento. Mas quem melhor que seu próprio criador para nos apresentar sua obra??? Em um texto complementar, anexado à edição comemorativa dos 25 anos de lançamento de ZAMM (Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas), Robert Pirsig assim caracteriza seu texto, recusado por mais de cem editores antes de ser aceito e lançado por uma pequena editora, para então alcançar o status de best-seller com mais de 5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo:

“Zen e a arte da manutenção de motocicletas são essencialmente três livros: o relato de uma viagem de moto de Minnesota à Califórnia, uma meditação filosófica sobre o conceito de Qualidade e a história de um homem perseguido pelo fantasma de seu eu anterior. Nesses três livros encontramos alegorias e tensões psicológicas, uma lição sobre as escolas de pensamento do Oriente e do Ocidente, uma charada sobre o sentido da existência, um comentário sobre a paisagem física e social dos Estados Unidos e algumas dicas bastante úteis sobre a manutenção de uma motocicleta.”

Dotado de uma estrutura altamente complexa e cuidadosamente elaborada, o livro leva o leitor a uma profunda imersão na mente do protagonista, seus conflitos, angústias, fugas e contradições. O estilo de narrativa em primeira pessoa é a estratégia usada pelo autor para realizar este feito. É por meio do olhar enviesado do narrador que conhecemos Fedro (o fantasma que o atormenta) e sua conturbada jornada em busca do conhecimento, contra a hipocrisia das instituições…

“Sentia ele (Fedro) que as instituições, como as escolas, igrejas, governos e organizações políticas de toda espécie, tendem a direcionar o pensamento para outras finalidades que não a verdade: para a perpetuação de suas funções e para a subordinação dos indivíduos a essas funções.”

“Quando você é educado para desprezar ‘o que lhe agrada’, torna-se um servo muito mais obediente – um excelente servo. Quando aprende a não fazer ‘ o que lhe agrada’, o Sistema passa a amá-lo.”

…e contra a ignorância e a superficialidade dos indivíduos…

“Para as ovelhas, Qualidade é o que o pastor diz. E, se você levar um ovelha para o alto das montanhas à noite, com o zunir do vento, a ovelha entrará em pânico e balirá desesperadamente até o pastor chegar, ou chegar o lobo.”

“Fedro visualiza essas almas sozinhas, à noite, depois de tirar os sapatos, as meias e as roupas de baixo que lhes foram vendidas bem caro pela propaganda, a contemplar, através de fuligem que se acumula nas janelas, as cascas grotescas que além destas se revelam – quando a pose se desfaz e a verdade se apresenta, a única verdade que existe aqui, a clamar aos céus: meu Deus, aqui não há nada a não ser este néon sem vida, este cimento e estes tijolos!”

A profunda investigação sobre a Qualidade, um dos três pilares do livro, brinda o leitor com poderosas reflexões filosóficas e complexas análises acerca das tradicionais estruturas de pensamento que moldam o padrão de comportamento da sociedade. Ao longo de sua jornada, enriquecedora e turbulenta, Fredo conclui que a Qualidade, seu objeto de pesquisa e verdadeira obcessão, é a causa geradora de sujeitos e objetos e não uma mera consequência derivada destes. Como tal, a Qualidade não é passível de definição e jamais se submeteria às convenções da tal Igreja da Razão (como Fedro chamava as tradicionais Instituições de Ensino).

“Em nosso estado orgânico altamente complexo, nós, organismos avançados, respondemos ao nosso ambiente inventando muitas analogias maravilhosas. Inventamos a terra e o céu, as árvores, as rochas e o mar, os deuses, a música, as artes, a linguagem, a filosofia, a engenharia, a civilização e a ciência. Damos a essas analogias o nome de realidade. E elas são a realidade. Em nome da verdade, hiponotizamos nossos filhos para levá-los a saber que elas são a realidade. Os que não aceitam essas analogias, nós os colocamos num hospício. Porém, o que nos leva a inventar as analogias é a Qualidade. A Qualidade é o estímulo contínuo que o ambiente nos impõe para criar o mundo em que vivemos: o mundo todo, em cada uma de suas partes.”

Além da instigante jornada intelectual, o leitor acompanha também uma bela jornada territorial, ao longo das estradas e diversas paisagens dos Estados Unidos, de pai e filho, dividindo a mesma motocicleta, mas emocionalmente separados por anos de aflições, desencontros e frustrações. Porém, a grata surpresa é descobrir que, ao final, o que cura tais feridas não é a prevalência da aparente normalidade que caracteriza a vida presente do pai, mas sim o retorno de Fedro, este sim a presença paterna genuína da qual o filho tanto sentia a falta.

“Evidentemente, as aflições nunca acabam. Enquanto estivermos vivos, estaremos fadados a padecer a infelicidade e o sofrimento, mas tenho agora um sentimento que não tinha antes e que não está apenas na superfície das coisas, mas penetra até o fundo: vencemos. Agora, tudo vai melhorar. Dá para sentir essas coisas.”

ZAMM é uma obra atemporal, capaz de nos fazer refletir sobre as questões mais profundas da humanidade, com extrema levaza e com humor. É, seguramente, um daqueles livros que merecem ser lidos pelo maior número possível de pessoas.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido” de Philippa Perry

Esta obra, de título longo e pouco convencional, chegou até mim por meio do perfil da School of Life Brasil, a quem sigo no Instagram. Por conta do lançamento do livro, a autora, que também é psicoterapeuta há mais de 20 anos, realizou alguns seminários, promovidos pela instituição e divulgados em suas redes sociais.

Ao longo dos últimos anos, tenho trabalhado para aprimorar as competências para o exercício daquela que julgo ser a minha mais importante missão: a paternidade. Minha formação em Coaching Ontológico no Território Appana foi um movimento profundo e fundamental neste sentido e, desde então, tenho intensificado a busca por conteúdos e reflexões que me auxiliem a me tornar o pai que meus filhos merecem.

“Todos os pais querem acertar na educação dos filhos para que, essencialmente, eles sejam felizes. Apesar de óbvio, esse não é um objetivo simples.”

O texto de Philippa é instigante e, ao mesmo tempo, de uma simplicidade encantadora. A partir de suas experiências pessoais e profissionais ela apresenta aos leitores uma abordagem sobre a criação dos filhos totalmente focada na construção de relações saudáveis e verdadeiras. Ela argumenta que grande parte de nossos comportamentos como pais tem origem nas experiências que vivenciamos como filhos e nas rupturas que experienciamos em nossas relações com aqueles que nos criaram. Tais rupturas, segunda ela, se não forem adequadamente reparadas podem comprometer a qualidade de nossa relação com nossos filhos, gerando uma série de disfunções que, com frequência, vislumbramos no seio das famílias.

Além da questão do legado que recebemos de nossos pais, o livro aborda também o impacto do ambiente que proporcionamos às crianças, bem como a importância da inteligência emocional para a construção e manutenção de nossas relações. A autora trabalha o cultivo destas relações desde o período da gravidez, passando pelos desafios adaptativos a uma nova rotina com um bebê e às demandas por atenção e cuidado que vão, naturalmente, mudando, à medida que as crianças crescem.

Aspectos como comunicação, birras, limites, mentiras e a relação com filhos jovens e adultos são também objeto de consideração e análise por parte da autora, sempre de forma leve e serena, buscando oferecer alternativas de observação e ação que contribuam para solução dos conflitos e o fortalecimento dos vínculos entre pais e filhos.

Ao meu ver, trata-se de uma obra extremente útil e valiosa para aqueles que almejam exercer uma paternidade/maternidade mais consciente, construindo relações sólidas e, sobretudo, baseadas no amor e na confiança mútua com seus filhos. Me parece ser este um bom caminho para que nossas crianças possam crescer saudáveis e felizes em um mundo cada vez mais desafiador.

grande abraço,

Marcelo Mello, pai do Gabriel e da Maria Benedita.

Resenha do livro “O mundo que não pensa” de Franklin Foer

Recentemente fiz uma busca pelo termo “Sapiens”. Meu intuito era verificar o preço da edição impressa do best seller de Yuval Noah Harari, “uma breve história da humanidade”. Eis que, dentre os resultados apresentados, surgiu este livro, com seu título provocativo e com um alarmante subtítulo que realmente capturou minha atenção: “a humanidade diante do perigo real da extinção do homo sapiens”. Acabei comprando o livro, cuja leitura conclui em poucos dias.

Trata-se de um texto muito fluído e agradável. O autor apresenta seus argumentos de forma clara e objetiva, incluindo várias histórias e personagens para consolidar e exemplificar seu ponto de vista.

O fio central do livro é uma aguda crítica as mega corporações de tecnologia de nossa era. Sem meias palavras, Foer detona o excessivo poder, o monopólio da informação e do comércio digital, bem como o desrespeito à privacidade de seus clientes e usuários, por parte das gigantes Amazon, Google e Facebook. O autor também explora a intensa desvalorização do trabalho intelectual de escritores e produtores de conteúdo fomentado pelos modelos de negócio extremamente agressivos destas empresas.

“[Os algoritmos] tomam decisões sobre nós e em nosso nome. O problema é que quando terceirizamos o raciocínio para as máquinas, na verdade estamos terceirizando o raciocínio para as organizações que operam as máquinas.”

O autor chama a atenção para os riscos de tais corporações estarem acumulando incríveis quantidades de dados sobre nossos interesses, hábitos e preferências, acabando por nos conhecer melhor que nós mesmos e adquirindo uma perigosa e antiética capacidade de influência sobre o destino de nossas vidas e sobre os rumos de nossa sociedade.

“Os algoritmos são um problema novo para a democracia. As empresas de tecnologia se vangloriam, sem muita vergonha, de como conseguem conduzir os usuários a um comportamento mais virtuoso – como nos induzem a clicar, ler, comprar ou até votar. São estratégias muito poderosas, porque não vemos a mão que nos conduz. Não sabemos como a informação foi moldada para nos instigar.”

O livro de Foer é praticamente um manifesto contra o conformismo e a alienação de nosso livre arbítrio em troca da comodidade e simplificação oferecidas pelos algoritmos determinam o que lemos, compramos, com quem interagimos e, em última instância, o que pensamos sobre o mundo. É também um grito em defesa do papel da imprensa como alicerce da democracia e da valorização do trabalho intelectual, o qual, segundo ele, tem sido destruído pelas garras cruéis do mercado. Neste ponto, o autor pode soar um tanto o quanto utópico e saudosista (de seu tempo como editor de uma tradicional revista impressa), contudo, creio que não devemos desconsiderar seus argumentos, os quais merecem de nós ao menos uma sincera reflexão: que valor damos à nossa liberdade e à nossa privacidade?

um grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “O mundo de Sofia” de Jostein Gaarder

Este romance norueguês, publicado originalmente em 1991 (e que já foi traduzido para mais de 60 idiomas) entrou no meu radar de leituras após meu interesse pela filosofia tem sido despertado durante minha formação em Coaching Ontológico no Território Appana. Em minhas pesquisas sobre livros de filosofia, acabei me deparando com este título, sobre o qual já tinha ouvido falar, mas nunca devotei atenção.

É importante ressaltar que não se trata de uma obra de referência sobre filosofia, mas sim de um romance que transita, de forma bastante leve, pela história do pensamento ocidental, abordando desde os filósofos clássicos, como Sócrates e Platão, passando pela Idade Média e pelo Renascentismo, explorando também pensadores racionalistas como Descartes e Baruch Espinosa, empiristas como Locke e Hume, bem como nomes consagrados nas ciências como Marx, Darwin e Freud.

É interessante destacar que esta viagem pela história da filosofia se dá dentro das histórias de Sofia e Hilde, duas garotas prestes a completar 15 anos, e cujos caminhos e mundos se cruzam em meio a reflexões filosóficas e existenciais. Cada situação vivida pelas protagonistas é, em algum grau, uma tentativa de responder à questões que instigam os pensadores desde a antiguidade: como o mundo foi criado? Existe vida após a morte? Como devemos viver? Refletir e buscar respostas coerentes para estas e outras questões é o grande desafio apresentado à Sofia, à Hilde e aos leitores que acompanham sua jornada.

“A única coisa de que necessitamos para ser filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas.”

Trata-se de uma leitura bastante agradável e interessante para quem quer ter um panorama geral da história do pensamento filosófico, funcionando como um ponto de partida para futuros aprofundamentos em períodos, correntes filosóficas e pensadores específicos. Seguramente é uma obra que gostaria que meus filhos lessem.

grande e fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Comunicação não-violenta” de Marshall B. Rosenberg

O tema da comunicação não-violenta tem ganho considerável espaço no meio organizacional ao longo dos últimos anos. Seus conceitos e práticas tem sido objeto de estudo e (tentativas de) aplicação em diversas organizações que buscam aprimorar suas relações e construir ambientes de trabalho e negócios mais efetivos e sustentáveis.

Eu já havia ouvido o termo CNV algumas vezes, tanto em minha organização, quanto referenciado em textos e notícias no mercado em geral, contudo, foi durante minha formação em Coaching no Território Appana que tive oportunidade de conhecer e interagir com pessoas que já conheciam e até mesmo trabalhavam com este assunto. Isto fez com que meu interesse pelo tema crescesse e que eu incluísse o livro de Marshall Rosenberg em minha lista de leituras.

Marshall Bertram Rosenberg (1934 – 2015) foi um psicólogo americano que desenvolveu o processo da CNV em 1963, tendo-o aplicado e aprimorado desde então. Segundo a página do CNVC (Center for Nonviolent Communication), organização sem fins lucrativos fundada por Marshall, seu método de comunicação já foi objeto de treinamento e aplicação em mais de 60 países, visando a resolução de conflitos tanto em organizações (dos mais variados setores), quanto em núcleos familiares.

“Em um mundo violento, cheio de preconceitos e mal-entendidos, buscamos ansiosamente soluções. Pois a boa comunicação é uma das armas mais poderosas, econômicas e de fácil aplicação.

Segundo seu criador, o processo da CNV está fundamentado em quatro componentes:

  1. Observação;
  2. Sentimento;
  3. Necessidades;
  4. Pedido.

De forma resumida, primeiramente devemos observar o que está ocorrendo, sem nenhum julgamento prévio. Em seguida, identificamos como estamos nos sentindo em relação àquela situação. Na sequência, buscamos identificar a quais de nossas necessidades estes sentimentos estão conectados e, por fim, formulamos um pedido específico visando atender a estas necessidades.

Ao longo de sua obra, o autor explora e detalha cada uma destas etapas do processo, exemplificando situações e sugerindo possíveis cursos de ação para colocar em prática a CNV. De forma simples e eficaz, Marshall demonstra todo o potencial desta abordagem para a construção e/ou restauração das relações em quaisquer esferas da vida.

“Para além das nossas ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” (Rumi)

Apesar de ter sido concebida há quase seis décadas, a CNV me parece extremamente atual e pertinente. Em um mundo cada vez mais individualista, polarizado e intolerante, é fundamental que possamos encontrar mecanismos para a promoção de empatia e de uma verdadeira conexão entre os seres humanos, independentemente de suas culturas, crenças ou hábitos individuais. Sem isso, corremos o sério risco de sermos os responsáveis por nossa própria extinção.

fraterno abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “A noite da espera” de Milton Hatoum

Recentemente encontrei na internet uma crítica muito interessante de uma obra recém lançada pelo escritor amazonense Milton Hatoum, “A noite da espera”. Instigado pelo elogios à obra e a seu autor, comprei o livro e mergulhei em sua leitura.

Trata-se da primeira parte de uma trilogia chamada “O lugar mais sombrio”, na qual o jovem paulista Martim muda-se com seu pai para Brasília, onde vivencia uma dolorosa saudade de sua mãe, uma relação fria com o pai, os amores, as amizades e as dúvidas inerentes à juventude, tudo isso tendo como pano de fundo os duros anos da Ditadura Militar.

O autor descreve o cenário inóspito da capital federal e seu impacto na vida de Martin com extrema delicadeza e sensibilidade, propiciando ao leitor uma experiência rica em detalhes e emoções.

“Saí do hotel à procura do centro da capital, mas não o encontrei: o centro era toda a cidade. Quando me perdia nas superquadras da Asa Sul, ou me entediava por não ver alma viva no gramado ao redor dos edifícios, andava até um setor comercial e a avenida W3 Sul, onde havia poucas pessoas, ônibus, carros.”

“Os bairros e avenidas têm siglas com letras e números, me perdi no primeiro passeio pelas superquadras da Asa Sul, parecia que estava no mesmo lugar, olhando os mesmos edifícios. São bonitos, cercados por um gramado que cresce no barro; essa beleza repetida também me confundiu. Tudo confunde, nada lembra lugar algum. O céu é mais baixo e luminoso, e as pessoas sumiram da cidade.”

Para quem, como eu, já viveu em Brasília, com suas linhas inconfundíveis, seu céu deslumbrante e sua assustadora frieza, a imersão na obra de Hatoum tende a evocar lembranças e sentimentos ainda mais profundos. Em que pese o fato de que a Brasília em que morei já respirava ares de plena liberdade, livre do pesado jugo dos militares, ainda assim, me identifiquei bastante com a relação intensa e conflituosa de Martin com esta cidade que não lembra lugar algum.

Trata-se, tal qual declarava a crítica, de uma obra prima da literatura brasileira contemporânea, que termina com o fechamento de um ciclo na vida do protagonista, deixando o leitor ávido pelo que virá. Aguardo ansioso pelo lançamento da segunda parte desta trilogia para continuar vivenciando as emoções da história de Martim, entremeada à de nosso país.

“Talvez seja isto o exílio: uma longa insônia em que fantasmas reaparecem com a língua materna, adquirem vida na linguagem, sobrevivem nas palavras…”

Abraço,

Marcelo Mello

Nietzsche e a Complexidade

Meus amigos,

ao contrário do que o título deste post possa dar a entender, não pretendo aqui apresentar nenhuma análise da relação entre a filosofia de Nietzsche e os conceitos inerentes à teoria da complexidade.   O objetivo aqui é tão somente compartilhar minhas principais impressões e destaques acerca de dois livros cuja leitura conclui recentemente: “Quando Nietzsche chorou” de Irvin Yalom e “As paixões do ego” de Humberto Mariotti.

O livro de Irvin Yalom é um clássico mundial e retrata o fictício encontro entre dois personagem reais: o filósofo alemão Friedrich Nietzsche e o médico austríaco Josef Breuer. Enquanto Nietzsche e sua avassaladora filosofia dispensam maiores apresentações, é importante destacar que Breuer foi contemporâneo e amigo de Sigmund Freud, tendo exercido significativa influência na concepção e desenvolvimento dos fundamentos da psicoterapia. Aliás, o livro explora bastante a relação entre Breuer e Freud, à época ainda um médico em início de carreira.

Os belíssimos diálogos que se desenvolvem entre Nietzsche e Breuer revelam uma complexidade emocional e uma profundidade intelectual fascinantes. Nietzsche vai  bradando, com gradativa intensidade, seu impiedoso martelo filosófico, promovendo a destruição dos ídolos e das ilusões de Breuer. Este, por sua vez, vai delineando, por meio da cuidadosa observação do comportamento de Nietzsche e de intervenções delicadamente planejadas, os conceitos fundamentais do que viria a ser a prática da psicologia. E tudo isso ocorre em meio a um complexo processo de construção de confiança e afetos mútuos.

Sem dúvida alguma, “Quando Nietzsche chorou” é um daqueles livros cuja leitura é capaz de incitar reflexões profundas e, me arrisco dizer, transformações significativas na estrutura do leitor.

Quando Nietzsche chorou

 

 

“…odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia.” (Friedrich Nietzsche)

 

 

 

 

 

As paixões do ego

 

 

“Discordando, concordando na aparência, ou apenas fingindo ouvir, o propósito é sempre o mesmo: negar a existência do interlocutor que questiona, afastar a possibilidade de que ele possa trazer algo novo e útil – fugir à diferença, enfim.” (Humberto Mariotti)

 

Já a obra de Humberto Mariotti, denominada “As paixões do ego”, tem como tema central o pensamento complexo e, ao longo do texto, o autor apresenta inúmeras distinções relacionadas e que compõem um grande panorama sobre este tema. Agregando as ideias de importantes pensadores como Gregory Bateson, Edgar Morin, Humberto Maturana, Francisco Varela, David Bohm, entre outros, Mariotti analisa o pensamento linear, característico de da cultura patriarcal, bem como sua alternativa sistêmica, não com o intuito de confrontá-los, mas sim de propor o caminho da complementariedade entre ambos os modelos, o que, segundo ele, resultaria no que ele distingue como pensamento complexo.

À luz do pensamento complexo, Mariotti aborda questões sociais, políticas e éticas, suscitando reflexões profundas e bastante pertinentes para nossa sociedade. Dois pontos, ao meu ver, merecem maior destaque:

1) Automatismo do modelo concordo/discordo: Mariotti alerta para a os riscos de reagirmos de forma automática e instantânea em nossas interações classificando o que ouvimos em “concordo” ou “discordo” sem abrir espaço para uma escuta sincera e uma reflexão mais profunda;

2) Os cinco saberes do pensamento complexo: segundo o autor, para se viver em plenitude o pensamento complexo, é preciso saber ver, saber esperar, saber conversar, saber amar e saber abraçar;

Sem dúvida alguma, a obra de Humberto Mariotti é extremamente útil e recomendada para quem deseja iniciar uma exploração do tema da complexidade e suas distinções relacionadas, o que me parece bastante pertinente em um mundo em constante ebulição como o que vivemos hoje.

 

grande abraço,

 

Marcelo Mello