Quem me leva os meus fantasmas (Maria Bethânia)

De que serve ter o mapa, se o fim está traçado?

De que serve a terra à vista, se o barco está parado?

De que serve ter a chave, se a porta está aberta?

Pra que servem as palavras, se a casa está deserta?

Não ouça, apenas sinta…

 

Abraço fraterno,

 

Marcelo Mello

 

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As emoções

Caros amigos,

segundo a Ontologia da Linguagem, o ser humano é constituído por três pilares fundamentais, os quais estão em constante busca por coerência entre si: A linguagem, o corpo e as emoções.

A linguagem, para além de seu caráter descritivo, possui uma capacidade geradora, capaz de criar novas realidades e, desta forma, nos possibilita a construção de novos mundos e do nosso próprio ser, a partir do nosso fazer/agir.

Nosso corpo, por sua vez, também reflete quem somos, nossa história, feridas, experiências e modelos mentais. Nosso corpo expressa de maneira clara e natural o significado que atribuímos a cada situação que vivenciamos, cada conversa em que tomamos parte e cada pensamento que nos toma.

Por fim, o domínio da emocionalidade está presente em toda a ação humana, da mais simples à mais complexa. Somos constantemente arrebatados pelas mais variadas emoções, mesmo que algumas delas não sejam tão claramente reconhecíveis.

O grande mestre Humberto Maturana afirma que as emoções são predisposições para a ação e, neste sentido, aquilo que sentimos influi diretamente em nosso modo de agir. Por outro lado, nossos sentimentos também são resultado de nossas ações e, dessa forma, temos um vínculo bastante estreito entre ação e emoção.

A busca pela coerência é a principal característica integradora dos três domínios constitutivos do ser humano: Linguagem, Corpo e Emoção. O que quer que ocorra em um destes domínios, seguramente afetará dos demais. Neste sentido é que Rafael Echeverria argumenta ser razoável esperar que transformações produzidas em um determinado domínio se traduzam em modificações nos demais, a fim de se resguardar a coerência entre eles.

Outro aspecto muito importante acerca das emoções é que nós não temos a capacidade de escolher sentir ou não determinada emocionalidade, contudo, podemos sim escolher como iremos agir diante de uma determinada emoção que me invade. Leonardo Wolk nos lembra que “ao assumir a responsabilidade diante das nossas emoções, também estamos responsabilizando-nos perante o mundo.”

Gostaria de encerrar este post compartilhando um singelo, porém profundo, conto sobre as emoções, retirado do livro “Coaching, a arte de soprar brasas” de Leonardo Wolk:

As emoções

Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades do ser humano.

Quando o tédio já tinha bocejado pela terceira vez, a loucura, como sempre tão louca, lhe propôs: vamos brincar de esconde-esconde?

A intriga levantou a sobrancelha intrigada e a curiosidade, sem poder se conter, perguntou:

-De esconde-esconde… e como é isso?

– É uma brincadeira – explicou a loucura – na qual eu tapo o rosto e começo a contar até um milhão enquanto vocês se escondem. E assim que eu tenha terminado de contar, o primeiro de vocês que encontre irá ocupar meu lugar para continuar a brincadeira.

O entusiasmo dançou acompanhado pela euforia, a alegria deu tantos saltos que acabou por convencer a dúvida incluindo a apatia, a quem nunca interessava nada.

Mas nem todos quiseram participar… a verdade preferiu não se esconder; para quê? Se no final ela sempre era dita, e a soberba achou que era um jogo muito bobo (mas no fundo o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela) e a covardia preferiu não se arriscar…

– Um, dois, três… – a loucura começou a contar.

A primeira a se esconder foi a preguiça, que, como sempre, deixou-se cair atrás da primeira pedra do caminho. A fé subiu aos céus e a inveja se escondeu por trás da sombra do triunfo, que com seu próprio esforço havia conseguido subir na copa da árvore mais alta. A generosidade quase não conseguia se esconder, cada lugar que via lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos…

– O quê? Um lago cristalino? Ideal para a beleza.

O quê? A fenda de uma árvore? Perfeito para a timidez.

O quê? O voo de uma mariposa? Ideal para a voluptuosidade.

O quê? A rajada do vento? Magnífico para a liberdade.

E assim a generosidade terminou por se esconder em um raiozinho de sol.

O egoísmo, ao contrário, encontrou um lugar muito bom desde o início, cômodo, ventilado… mas só para ele. A mentira se escondeu no fundo dos oceanos (mentira, na verdade se escondeu atrás do arco-íris) e a paixão e o desejo no centro dos vulcões.

O esquecimento… eu esqueci onde se escondeu… mas isso não é importante.

Quando a loucura contava 999.999, o amor ainda não tinha encontrado um lugar para se esconder, pois todos os lugares se encontravam ocupados, até que avistou um roseiral… e enternecido decidiu esconder-se em suas flores.

Um milhão! – contou a loucura, e começou a procurar. A primeira a aparecer foi a preguiça, a apenas três passos de uma pedra.

Depois, escutou-se a fé discutindo com Deus nos céus sobre zoologia…

A paixão e o desejo foram sentidos pelo vibrar dos vulcões. Em um descuido, encontrou a inveja e, claro, pôde deduzir onde estava o triunfo.

Nem teve de procurar o egoísmo. Ele mesmo saiu em disparando de seu esconderijo, que no final acabou por ser um ninho de vespas.

De tanto caminhar, sentiu sede e, ao se aproximar do lago, descobriu a beleza.

Com a dúvida, acabou sendo mais fácil ainda, porque a encontrou sentada sobre um cerca sem conseguir decidir de que lado se esconderia.

Assim foi encontrando todos. O talento entre a relva fresca, a angústia em uma caverna escura, a mentira atrás do arco-íris (mentira, ela estava mesmo no fundo do oceano)… e o esquecimento… que já havia esquecido que estavam brincando de esconde-esconde.

Mas o amor não aparecia em lugar nenhum.

A loucura procurou atrás de cada árvore, debaixo de cada pedregulho do planeta, em cima das montanhas… e, quando estava se dando por vencida, avistou um roseiral e as rosas… pegou um forquilha e começou a mexer nos ramos, quando de repente se escutou um grito doloroso.

Os espinhos haviam ferido os olhos do amor; a loucura não sabia o que fazer para se desculpar. Chorou, pediu, rogou, implorou perdão e, como castigo, prometeu até ser seu guia.

Conta a lenda que desde então, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na terra, o amor é cego… e a loucura sempre o acompanha.

um grande a fraternal abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Dignidade!” (vários autores)

Meus amigos,

confesso que algumas vezes chego (mesmo que só por alguns momentos) a perder a fé na humanidade. São tantas mentiras, iniquidades, violências, tragédias, maldades, arbitrariedades, injustiças, mandos e desmandos acontecendo cotidianamente ao nosso redor que não é tarefa trivial manter-se otimista quanto ao nosso futuro.

Por outro lado, nem tudo é escuridão e tristeza. Existem várias pessoas e organizações agindo com o único e nobre objetivo de ajudar ao próximo, e eles são muitos, espalhados pelo mundo inteiro, embora localizados em maior número, não por acaso, nos países mais pobres.

Uma dessas organizações é a MSF – Médicos Sem Fronteiras – a qual mantém um impressionante trabalho assistencial em mais de 70 países com mais de 28 mil profissionais de diferentes especialidades.

Dignidade

E é justamente este belo e inspirador trabalho o tema do livro Dignidade!, no qual nove escritores foram convidados a visitar diferentes iniciativas da MSF e contar sobre suas experiências ao entrar em contato com situações extremamente chocantes como os estupros no Congo, a epidemia de doença de Chagas na Bolívia, as vítimas de tuberculose e HIV na África do Sul, o combate à leishmaniose visceral em Bangladesh e os imigrantes ilegais presos na Grécia.

São histórias carregadas de muita dor, sofrimento e injustiça social, mas também são relatos que demonstram o poder da solidariedade, materializada em pessoas que deixam de lado todas as coisas que nossa sociedade contemporânea tanto valoriza (status, conforto, poder, dinheiro, etc) para dedicar seu tempo, energia e conhecimento em prol do bem estar de seus semelhantes.

Dignidade! é um livro cuja leitura nos causa diferentes emocionalidades. Se por um lado os relatos nele contidos nos trazem alento e esperança quanto à possibilidade de um futuro melhor, mais justo, humano e digno para todos, por outro, ele deixa latente uma inquietante pergunta: o que eu estou fazendo para concretizar este futuro?

 

abraços,

Marcelo Mello