Construindo inferências a partir de modelos mentais pré-estabelecidos

Um homem quer pendurar um quadro. Ele tem um prego, mas nenhum martelo. O vizinho tem um, portanto nosso homem decide pedir emprestado. Mas então uma dúvida lhe ocorre. “E se o vizinho não quiser me emprestar? Ontem ele mal acenou com a cabeça quando o saudei. Possivelmente, ele estava com pressa. Mas possivelmente fingia estar com pressa porque não gosta de mim. E por que ele poderia não gostar de mim? Eu sempre fui gentil com ele; obviamente, ele imaginava algo. Se alguém quisesse pedir alguma de minhas ferramentas emprestada, eu naturalmente emprestaria. Então, por que ele não quer emprestar-me seu martelo? Como alguém pode recusar uma solicitação tão simples? Pessoas como ele realmente envenenam a vida dos outros. Ele provavelmente até imagina que depende dele apenas porque ele tem um martelo. Eu lhe direi poucas e boas.” E, assim, nosso homem vai ao apartamento do vizinho e toca a campainha. O vizinho abre a porta, mas, antes que ele possa até dizer “Bom dia”, nosso homem começa a gritar: “Pode ficar com seu maldito martelo, que eu não preciso dele, seu idiota!”

Citação do filósofo Paul Watzlawick, extraída do livro Teoria U de C. Otto Scharmer

Para refletir: A partir de onde se origina nossa ação? Desde onde fazemos o que fazemos?

Abraço,

Marcelo Mello

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Metamanagement – Um pouco mais sobre as inferências

Olá pessoal,

acabei de reler o capítulo do livro Metamanagement que trata das inferências e de seu papel crucial nas interações humanas. Nesse texto, Kofman nos explica que a capacidade de fazer inferências é extremamente útil para que nós, seres humanos, possamos operar no dia a dia, tomando as inúmeras decisões e executando as respectivas ações necessárias à nossa sobrevivência. Ele também concebe esse processo como uma escada, a escada de inferências, cujos degraus são os seguintes:

  1. dados objetivos da realidade: as observações ou fatos imediatamente verificáveis para qualquer observador;
  2. interpretações: o quadro de situação subjetivo que você arma a partir daquilo que observa, supõe e infere;
  3. juízos: as opiniões que temos sobre o que acontece ou interpretamos que acontece. Essas opiniões surgem da comparação de nossa interpretação com valores e parâmetros;
  4. conclusões e as decisões sobre como agir: dada  a interpretação da situação e os juízos que fazemos dela, tomamos decisões;

Ainda segundo Kofman, o modelo mental de cada pessoa funciona como o “corrimão” da escada de inferências, condicionando as observações e orientando as interpretações, juízos e as conclusões. E é exatamente aí que reside o principal risco do processo de inferir, a saber, subir de forma precipitada e inconsciente os degraus de nossa escada de inferências, chegando ao topo, ou seja, às decisões e ações, por meio de observações, interpretações e juízos inválidos. É fato que as pessoas possuem modelos mentais diferentes, resultado de todas as experiências acumuladas ao longo da vida e quando alguém esquece que suas inferências (observações, interpretações, juízos e conclusões)  são condicionadas por seu modelo mental e que este, por sua vez, longe de ser um reflexo objetivo da realidade, representa apenas uma visão pessoal dessa realidade, aí é que emergem as decisões, as discussões e os conflitos que podem inviabilizar a coordenação de ações entre os indivíduos.

Escada de inferências

Escada de inferências

Para prevenir que tal situação ocorra, Kofman nos sugere algumas estratégias para melhorar a efetividade de nossas conversações:

  • Reconhecer que as observações, interpretações, opiniões, conclusões e recomendações que você tem em mente são condicionadas pelo seu modelo mental;
  • Indagar sobre os dados, raciocínios e objetivos do outro. Fazer perguntas que o convidem a descer a escada de inferências;
  • Revelar os próprios dados, raciocínios e objetivos. Descer a escada de inferências à vista do outro;
  • Verificar as inferências sobre os modelos mentais dos outros. Não acreditar que você consegue ler a mente deles e descobrir quais são suas intenções, desejos, temores, preocupações e interesses;
  • Pedir exemplos ou ilustrações. Tornar concretas as abstrações;

Entendo que o processo de fazer inferências é parte indissociável de nossa atuação como seres humanos, mas precisamos estar muito atentos a cada degrau na subida em nossa escada de inferências, lembrando sempre que interagimos com outros seres humanos, que possuem modelos mentais muitas vezes completamente antagônicos aos nossos, mas que são igualmente legítimos, e que o caminho para o acordo e a colaboração passa, necessariamente, pela substituição do desejo de “vencer a disputa” por uma incessante busca pelo respeito e pelo aprendizado mútuos.

Por fim, compartilho com vocês mais uma singela história, também extraída do livro Metamanagement, e que ilustra o poder e os perigos de nossas inferências:

Na plataforma da vida

biscoitos
Naquela tarde, a elegante senhora chegou à estação e foi informada de que seu trem partiria com uma hora de atraso.

Contrariada, a senhora comprou um pacote de biscoito, uma garrafa de água e uma revista para passar o tempo.

Procurou um banco na plataforma central e sentou-se para esperar.

Enquanto folheava a revista, um rapaz se sentou ao seu lado e começou a ler o jornal. De repente, sem dizer uma só palavra, o rapaz estendeu a mão, pegou o pacote de biscoitos e se pôs a comê-los despreocupadamente.

A senhora ficou furiosa. Não queria ser grosseira, mas era impossível aceitar passivamente aquela situação ou fazer de conta que nada estava acontecendo. Ela então, com um gesto enfático, pegou o pacote e tirou um biscoito. Acintosamente, fitando o rapaz nos olhos, ela comeu o biscoito.

Como resposta, o rapaz pegou outro biscoito e, olhando a senhora nos olhos, sorriu e comeu o biscoito.

A senhora, já enfurecida e com visíveis sinais de raiva, manteve os olhos fixos no rosto do rapaz e comeu outro biscoito.

E assim continuou aquele silencioso diálogo de olhares e sorrisos entremeado por biscoito e biscoito, ela cada vez mais irritada e ele cada vez mais sorridente.

Finalmente, a senhora percebeu que só restava um biscoito. “Ele não pode ser tão cara-de-pau”, pensou, olhando alternadamente para o rapaz e para o pacote.

Com toda a calma, o rapaz estendeu a mão, pegou o último biscoito e delicadamente quebrou-o ao meio.

Com um gesto amoroso, ofereceu uma parte à sua companheira de banco.

– Obrigada! – disse a senhora, pegando a metade de biscoito com rudeza.

– De nada – respondeu o rapaz com um sorriso doce, enquanto comia sua metade.

E então o trem anunciou sua partida.

A senhora se levantou, furiosa, e embarcou.

O trem partiu e a senhora, pela janela do vagão, viu o rapaz ainda sentado na plataforma e pensou: “Mas que insolente, que mal-educado! O que será do mundo com uma juventude assim?!”

Ainda olhando o rapaz, cheia de ressentimento, a senhora sentiu a boca seca, tamanha era a raiva que aquela situação lhe tinha provocado. Abriu a bolsa para pegar a garrafa de água e ficou totalmente surpresa ao encontrar lá dentro, intacto, o seu pacote de biscoitos.

união

Grande abraço e boas inferências a todos,

Marcelo Mello

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“Um homem, cujo machado tinha desaparecido, suspeitou do filho do vizinho: o garoto caminhava como ladrão, se vestia como ladrão e falava como ladrão. Mas o homem encontrou seu machado quando cavava uma fossa no vale. Na próxima vez que viu o filho do vizinho, o garoto caminhava, se vestia e falava como qualquer outro garoto”.

conto tradicional alemão

extraído do livro “Metamanagement” de Fredy Kofman