Resenha do livro Teoria U de C. Otto Scharmer

Caríssimos amigos,

acabei de reler o livro Teoria U de C. Otto Scharmer, obra que foi uma das principais referências de minha dissertação de Mestrado, a fim de escrever um artigo para meu recente curso de MBA em Gestão Empresarial.

É muito interessante notar o quanto a releitura de um texto, sobretudo um tão denso como este, nos propicia aprofundar sua compreensão e captar distinções que nos passaram despercebidas quando do primeiro contato.

A Teoria U é apresentada por Scharmer como uma jornada rumo ao exercício da liderança a partir de nossas mais altas possibilidades futuras, iluminando o que ele chama de ‘ponto cego’, a fonte de onde se origina nossa atenção e ação. O autor afirma que “a mesma pessoa na mesma situação fazendo a mesma coisa pode produzir um resultado totalmente diferente dependendo do lugar interior a partir do qual essa ação está vindo.”

O movimento completo do U é composto por seis pontos de inflexão, além de um limiar de transformação, na base do U, como pode ser verificado na figura abaixo:

Imagem Movimento do U

Ao longo desta instigante obra, Otto C. Scharmer vai gradualmente apresentando sua poderosa teoria, como uma nova tecnologia social para que os líderes possam atuar de forma efetiva em um mundo caracterizado pela mudança constante e pela crescente complexidade, passando a operar a partir de um futuro emergente.

O movimento do U é profundamente explorado e cada uma de suas etapas (Recuperação, Visão, Sentir, Presencing, Cristalizar, Prototipar e Atuar) é tratada em detalhes pelo autor, associando-as a temas relevantes como complexidade, aprendizagem, mudanças e níveis de escuta, além de apresentar os fundamentos filosóficos que sustentam sua teoria.

 

“… para lidar com os desafios de nosso tempo, precisamos aprender a deslocar o modo como prestamos atenção, a estrutura de campo de nossa atenção. O modo como prestamos atenção – o lugar do qual operamos – é o ponto cego em todos os níveis da sociedade.”

Scharmer sintetiza sua teoria em um conjunto de proposições, princípios e práticas, os quais reproduzo abaixo:

21 proposições sobre a Teoria do Campo Social:

  1. Os sistemas sociais são “colocados em prática” ou “encenados” (enacted) pelos seus membros em um contexto;
  2. O ponto cego das ciências sociais, dos sistemas sociais e da teoria de campo hoje em dia diz respeito às fontes nas quais os sistemas sociais têm origem;
  3. Há quatro fontes diferentes de atenção da qual pode emergir a ação social:
    1. Eu em mim;
    2. Eu no objeto;
    3. Eu em você;
    4. Eu no agora;
  4. As quatro fontes e estruturas de atenção dão origem a quatro diferentes fluxos ou campos de emergência;
  5. Os quatro campos de encenação da realidade social aplicam-se a todas as esferas de criação da realidade social (Micro, Meso, Macro e Mundo);
  6. Os pontos de inflexão movendo-se de um campo para outro são idênticos em todos os níveis;
  7. Quanto maior a hipercomplexidade de um sistema, mais crítica é a capacidade para operar a partir dos campos mais profundos da emergência social;
  8. A inovação profunda que trata os três tipos de complexidade exige um processo que integre três movimentos: abrir-se para contextos que importam (cossentir), conectar-se à fonte de quietude (co-presencing) e prototipar o novo (cocriação);
  9. Para acessar e ativar as fontes mais profundas dos campos sociais três instrumentos devem ser ajustados, ou “afinados”: a mente aberta, o coração aberto e a vontade aberta;
  10. Abrir esses níveis mais profundos exige a superação de três barreiras: a Voz de Julgamento (VOJ), a Voz do Cinismo (VOC) e a Voz do Medo (VOF):
    • VOJ (Voz do Julgamento): Os velhos e limitantes padrões do julgamento e pensamento. Sem a capacidade de desligar ou suspender a VOJ, não faremos nenhum progresso para acessar a criatividade e nunca atingiremos os níveis mais profundos do U.
    • VOC (Voz do Cinismo): As emoções da desconexão, tais como cinismo, arrogância e frieza que nos impedem de mergulhar nos campos em volta de nós.
    • VOF (Voz do Medo): O medo de deixar ir o eu familiar e o mundo conhecido; o medo de ir em frente; medo de se render no espaço do nada.
  11. Subir o lado direito do U (cocriação) exige um compromisso de servir o todo e a capacidade de reintegrar a inteligência da cabeça, do coração e das mãos;
  12. Quanto maior o intervalo entre a complexidade sistêmica exterior e a capacidade interior de acessar os fluxos mais profundos da emergência, é mais provável que um sistema sairá dos trilhos e reverterá para um espaço destrutivo de antiemergência;
  13. O espaço social da antiemergência é manifestado em um movimento reacionário conhecido como fundamentalismo (que pode ser religioso, político ou econômico);
  14. O campo social é um todo em desenvolvimento que pode ser observado e experimentado pelas cinco dimensões. São eles: espaço social, tempo social, o coletivo, o eu e o espaço envolvente (Terra);
  15. À medida que um campo social se desenvolve e começa a incluir os mais profundos níveis e fluxos da emergência, a experiência de tempo, espaço, eu, coletivo e Terra funde-se por meio de um processo escultural de inversão;
  16. A abertura das fontes e dos fluxos de emergência mais profundos inverte a relação entre o indivíduo e o coletivo;
  17. A abertura das fontes mais profundas e dos campos de emergência transformam a relação entre o conhecedor e o conhecido;
  18. O campo social é uma escultura de tempo na criação;
  19. O desenvolvimento do campo social é uma função da ressonância mórfica sem escala;
  20. O futuro de um sistema é uma função do Campo (fonte) a partir do qual escolhemos operar;
  21. A força revolucionária neste século é o despertar de uma capacidade humana geradora profunda – o “eu no agora”;

Princípios e práticas do Presencing para conduzir inovação e mudanças profundas:

  1. Atenda: ouça o que a vida o convida a fazer;
  2. Conecte-se: ouça e dialogue com participantes interessantes no campo;
  3. Coinicie um grupo central diversificado que inspire uma intenção comum;
  4. Forme uma equipe central de protótipo altamente comprometida e esclareça questões essenciais;
  5. Faça jornadas de mergulho profundo aos lugares de maior potencial;
  6. Observe, observe, observe: suspenda a Voz do Julgamento (VOJ) e conecte-se ao estado de deslumbramento;
  7. Pratique o ouvir profundo e o diálogo: conecte-se a outros com mente, coração e vontade abertos;
  8. Crie órgãos de sensibilização coletiva que permitam ao sistema ver a si próprio;
  9. Deixe ir: deixe ir seu velho eu e coisas que devem morrer;
  10. Deixe vir: conecte-se e renda-se ao futuro que quer emergir por você;
  11. Silêncio intencional: adquira uma prática que o ajude a se conectar com a sua fonte;
  12. Siga a sua jornada: faça o que ama, ame o que faz;
  13. Lugares de presença: crie círculos nos quais vocês mantenham uns aos outros na futura intenção mais elevada;
  14. O poder da intenção: conecte-se ao futuro que precisa de você – cristalize sua visão e sua intenção;
  15. Forme grupos centrais. Cinco pessoas podem mudar o mundo;
  16. Esboce microcosmos estratégicos como uma pista de aterrissagem para o futuro emergente;
  17. Integre cabeça, coração e mãos: busque isso com as mãos; não pense, sinta;
  18. Itere, itere, itere: crie e adapte-se e sempre permaneça em diálogo com o universo;
  19. Codesenvolva ecossistemas de inovação que conectem e renovem vendo a partir do todo emergente no todo emergente;
  20. Crie infraestruturas de inovação modelando ritmo e lugares seguros para treinamento por pares/colegas (com o suporte da tecnologia social);
  21. Teatro do Presencing: desenvolva a consciência coletiva via mídias de nível 4;

 

Se você tem interesse em conhecer e refletir sobre novas formas de compreensão da maneira como percebemos a agimos no mundo, recomendo fortemente a leitura desta obra.

 

 

grande abraço,

 

 

Marcelo Mello

Resenha do livro “Capitalismo Consciente”de John Mackey e Raj Sisodia

Caríssimos amigos,

a obra sobre a qual irei falar neste post também chegou ao meu conhecimento por meio das redes sociais. Após ler inúmeros comentários positivos, sobretudo no meu Twitter, fui até um livraria e comprei uma cópia de “Capitalismo Consciente – como libertar o espírito heróico dos negócios”, escrito por John Mackey e Raj Sisodia.

Mackey é o CEO da Whole Foods Market, líder mundial na venda de alimentos naturais e orgânicos, com mais de 340 lojas espalhadas pelos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá e cujas prateleiras são reconhecidas por abrigar somente produtos de altíssima qualidade e, de forma geral, relacionados a uma alimentação saudável. Já Raj é professor e pesquisador, além de autor de sete livros sobre organizações e negócios.

“Negócios não têm a ver com fazer o máximo de dinheiro possível. Têm a ver com a criação de valor para as partes interessadas.” (pág. 23)

A proposta central do livro é apresentar uma forma diferente de se operar o modelo Capitalista, na qual o lucro não seja a única ou principal razão de ser das organizações. Segundo os autores, uma empresa consciente deve possuir propósitos mais elevados e buscar a geração de valor, de maneira equilibrada e sustentável, para todas as partes interessadas (stakeholders).

“Ser consciente significa estar totalmente desperto e lúcido para enxergar realidade com clareza e para entender todas as consequências de nossas ações, a curto e a longo prazo. Significa estar atento ao que se passa dentro de nós mesmos e na realidade externa, bem como aos impactos disso tudo sobre o mundo. Significa, também, ter um forte compromisso com a verdade e agir do modo mais responsável, de acordo com o que entendemos ser verdadeiro.” (pág. 31)

Os modelo proposto pelos dois autores e chamado por eles de Capitalismo Consciente está alicerçado em quatro princípios, a saber:

  1.  Propósito maior: ao atuarem segundo um propósito maior, as empresas vão além da simples geração/maximização do lucro e passam a criar um impacto positivo muito maior para todos os seus stakeholders. O propósito e os valores constituem o núcleo de uma empresa consciente.
  2. Integração de stakeholders: para os autores, stakeholders são todas as entidades que impactam ou são impactadas por uma organização, as quais são igualmente importantes e estão conectadas por um senso de propósito e valores compartilhados. Dessa forma, a relação entre esses atores deve ser pautada pela busca de soluções do tipo “ganha-ganha”, preservando a harmonia e a integração entre as partes.
  3. Liderança consciente: A concretização do Capitalismo Consciente requer a plena atuação de líderes conscientes, dotados de elevados níveis de inteligência analítica, emocional e espiritual, de forma que sejam capazes de refletir sobre o negócio e conduzi-lo de forma sofisticada e complexa.
  4. Cultura e gestão conscientes: Tanto a forma de gestão quanto a cultura organizacional são fatores fundamentais para a prática do Capitalismo Consciente, na medida em que devem garantir a força e a estabilidade necessárias para a preservação do propósito maior da empresa. Confiança, responsabilidade, transparência, integridade, igualitarismo, justiça, crescimento pessoal, amor e cuidado são algumas das características comuns de uma cultura consciente.

“As organizações florescem a partir do compromisso e da criatividade do ser humano.” (pág. 77)

A maior parte do livro destina-se a aprofundar cada um desses quatro princípios, citando, com frequência, algumas organizações que vivenciam essas distinções e, por isso, são consideradas pelos autores como exemplos de empresas conscientes.

Após apresentar os princípios do Capitalismo Consciente, bem como seus argumentos em prol desse modelo, os autores fazem uma exortação para que todos contribuam para a difusão desse novo paradigma, argumentando que a atual forma de se pensar os negócios e as organizações é insustentável em vários aspectos e que, portanto, precisa ser substituída por uma nova abordagem, capaz de produzir valor com ética e justiça.

“Um dia, praticamente todas as empresas irão funcionar com uma orientação para seus propósitos maiores, integrando os interesses de todas as partes interessadas, desenvolvendo e promovendo líderes conscientes e construindo uma cultura de confiança responsabilidade e cuidado.” (pág. 286)

Na minha opinião, trata-se de um obra bastante oportuna para o contexto atual da humanidade. Notadamente, enfrentamos uma crise em nossa forma de ser no mundo, a qual tem se manifestado de diversas maneiras e nas mais variadas áreas.

Particularmente, sou defensor do capitalismo por entender que trata-se de um modelo capaz de recompensar o esforço, a dedicação a criatividade de indivíduos e organizações, permitindo que todos tenham a chance de realizar seu potencial. Contudo, me parece claro que o atual paradigma capitalista está carregado de vícios e falhas éticas, que não só comprometem suas mais elevadas virtudes como o tornam causa de inaceitáveis injustiças. Dessa forma, faz-se necessário um redesenho desse modelo de maneira a que possamos retomar sua essência baseada na livre iniciativa, oferta de oportunidades e criação de valor partilhado e sustentável.

“Capitalismo Consciente” é uma obra que apresenta uma proposta de evolução para o modelo capitalista e propõe uma interessante reflexão sobre os propósitos e valores que balizam nossa forma de ser/atuar no mundo. Recomendo a leitura!

 

abraço,

 

Marcelo Mello

Resenha do livro “Dignidade!” (vários autores)

Meus amigos,

confesso que algumas vezes chego (mesmo que só por alguns momentos) a perder a fé na humanidade. São tantas mentiras, iniquidades, violências, tragédias, maldades, arbitrariedades, injustiças, mandos e desmandos acontecendo cotidianamente ao nosso redor que não é tarefa trivial manter-se otimista quanto ao nosso futuro.

Por outro lado, nem tudo é escuridão e tristeza. Existem várias pessoas e organizações agindo com o único e nobre objetivo de ajudar ao próximo, e eles são muitos, espalhados pelo mundo inteiro, embora localizados em maior número, não por acaso, nos países mais pobres.

Uma dessas organizações é a MSF – Médicos Sem Fronteiras – a qual mantém um impressionante trabalho assistencial em mais de 70 países com mais de 28 mil profissionais de diferentes especialidades.

Dignidade

E é justamente este belo e inspirador trabalho o tema do livro Dignidade!, no qual nove escritores foram convidados a visitar diferentes iniciativas da MSF e contar sobre suas experiências ao entrar em contato com situações extremamente chocantes como os estupros no Congo, a epidemia de doença de Chagas na Bolívia, as vítimas de tuberculose e HIV na África do Sul, o combate à leishmaniose visceral em Bangladesh e os imigrantes ilegais presos na Grécia.

São histórias carregadas de muita dor, sofrimento e injustiça social, mas também são relatos que demonstram o poder da solidariedade, materializada em pessoas que deixam de lado todas as coisas que nossa sociedade contemporânea tanto valoriza (status, conforto, poder, dinheiro, etc) para dedicar seu tempo, energia e conhecimento em prol do bem estar de seus semelhantes.

Dignidade! é um livro cuja leitura nos causa diferentes emocionalidades. Se por um lado os relatos nele contidos nos trazem alento e esperança quanto à possibilidade de um futuro melhor, mais justo, humano e digno para todos, por outro, ele deixa latente uma inquietante pergunta: o que eu estou fazendo para concretizar este futuro?

 

abraços,

Marcelo Mello

Imagine organizações diferentes…

Caros amigos,

foi por meio do Twitter que tomei conhecimento do livro que se tornou minha mais nova leitura: Capitalismo Consciente de John Mackey e Raj Sisodia. Apesar de estar ainda nos primeiros capítulos desta obra, já pude perceber que se trata de um texto impactante, carregado de ideias instigantes e poderosas.

Capitalismo

Compartilho abaixo um trecho em especial que me marcou profundamente. Trata-se de um convite, ou melhor, um verdadeiro chamado para que repensemos a maneira como concebemos e conduzimos nossas organizações, a fim de que elas venham a exercer seu verdadeiro potencial em prol da humanidade:

Imagine…

Imagine uma empresa nascida do sonho de como o mundo poderia e deveria ser. Seus fundadores estão ávidos por criar algo com relevância, ressonância e permanência – um negócio que vai sobreviver a eles, entregando valor real de múltiplas maneiras a todos que puder alcançar. Eles querem construir um negócio do qual seus pais e filhos se orgulharão, que aspire muito mais do que ganhar dinheiro, que contribua para melhorar a saúde e o bem-estar da sociedade. Eles sonham com a consolidação de um negócio que, por sua simples existência, enriqueça o mundo e proporcione alegria, satisfação e senso de significado para todos os que estão à sua volta.

Imagine um negócio construído sobre o amor e o cuidado (e não sobre o estresse e o medo), tocado por uma equipe cujos membros são apaixonados e comprometidos com o trabalho e cuja rotina transcorra em clima de intensidade focada, colaboração e camaradagem. Em vez de esgotados e tensos, esses trabalhadores se encontram no final do dia reenergizados com a inspiração e o compromisso que os atraiu para o negócio desde o início – a oportunidade de se sentir como parte de algo maior do que eles mesmos, de fazer a diferença, de agregar um propósito à forma como se ganha a vida.

Pense em uma empresa que se preocupa profundamente com o bem-estar de seus clientes, encarando-os não como consumidores, mas como seres humanos de carne e osso a quem tem o privilégio de servir. Isso significaria não mais enganar, maltratar ou ignorar seus clientes, mas, sim, dedicar a eles o cuidado que qualquer pessoa daria a seus entes queridos. A equipe da empresa, assim, experimentaria a alegria de servir, de enriquecer a vida dos outros.

Visualize um negócio que envolva também as pessoas de fora da empresa, inserindo-as de verdade no círculo íntimo de relacionamento e tratando-as com o mesmo amor e o mesmo cuidado dispensado aos clientes e à equipe. Imagine uma empresa comprometida com os valores da cidadania em todas as comunidades em que atua, elevando e contribuindo de várias maneiras para o aperfeiçoamento da vida cívica. Imagine uma empresa que vê seus concorrentes não como inimigos a ser derrotados, mas como professores com quem se pode aprender muito e companheiros de viagem na jornada rumo à excelência. Projete um negócio realmente preocupado com o planeta e com todos os seres sencientes que nele habitam – uma empresa que celebre as glórias da natureza, que vá além do carbono neutro para tornar-se uma força de cura capaz de devolver a vitalidade sustentada à ecosfera.

Imagine um empresa extremamente cuidadosa com as pessoas que contrata, uma companhia na qual todos desejam entrar e ninguém quer sair. Imagine um negócio com pouquíssimos gerentes, que não precisam olhar por cima dos ombros das pessoas para se certificar de que estão trabalhando ou sabem o que fazer. Um negócio autogerido, automotivado, auto-organizado e autocurável, como qualquer ser senciente evoluído.

Enxergue dentro de sua mente um negócio que escolha e promova líderes pela sabedoria, pela capacidade de amar e cuidar de seus comandados, por orientar e inspirar as pessoas, e não por iludi-las ou puni-las. Esses líderes têm um vivo entusiasmo pela equipe e pelo propósito do negócio, importando-se menos com poder ou enriquecimento pessoal.

Imagine uma empresa na qual existia um ciclo virtuoso de criação multifacetada de valor, gerando impacto social, intelectual, emocional, espiritual, cultural e físico, além de riqueza ecológica e bem-estar para todos, ao mesmo tempo em que obtém resultados superiores ano após ano, década após década. Pense em uma empresa que, embora reconheça a limitação dos recursos do planeta, saiba que a criatividade humana é ilimitada, promovendo continuamente condições para as pessoas explorarem seu extraordinário, quase milagroso, potencial.

Bem-vindo ao novo mundo heroico do capitalismo consciente.

Acredito plenamente que este novo paradigma de empresa tão brilhantemente descrito pelos autores não se constitui em uma utopia delirante, como pode parecer a alguns, mas sim representa um caminho viável e absolutamente necessário para que nossa sociedade supere os desvios e mazelas causados pela deturpação do modelo capitalista.

Grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Source: The Inner Path of Knowledge Creation” de Joseph Jaworski

Caros amigos,

A ideia deste post é compartilhar com vocês uma breve resenha do livro “Source: The inner path of knowledge creation”, bem como algumas reflexões pessoais sobre esta instigante obra.

Desde que soube que Joseph Jaworski iria lançar um novo livro, fiquei bastante ansioso para saber o que este brilhante autor, que já havia nos brindado com valiosas distinções e insights poderosos em sua obra anterior (“Sincronicidade”, cuja resenha publiquei neste blog – clique aqui para ler), teria a nos dizer agora.

Tão logo o livro foi lançado, adquiri uma cópia em formato eletrônico (ebook) e mergulhei em uma experiência que realmente desafiou significativamente meus paradigmas.

Source

“Source” não é, seguramente, uma obra que possa ser assimilada ou aceita com facilidade, e me arrisco a afirmar que sua compreensão, mesmo que parcial, requer um conjunto prévio de distinções que está longe de ser trivial. Ainda assim, mesmo para aqueles que eventualmente possuam tais distinções, as ideias propostas por Jaworski provavelmente irão a causar algum nível de estranheza e dúvida.

O livro, a exemplo do que já havia ocorrido com sua obra anterior, é escrito basicamente na forma de relatos acerca de experiências vivenciadas pelo autor ao longo de sua vida, desta feita, em uma jornada pessoal que tinha por objetivo responder a duas questões fundamentais: i) Qual a fonte de nossa capacidade para acessar o conhecimento de que necessitamos para agir em um dado momento? ii) Como podemos aprender a ativar tal capacidade, tanto individual quanto coletivamente?

O texto de Jaworski pode parecer, a primeira vista, um tanto o quanto místico e, de fato, a dimensão espiritual se faz presente nas ideias expostas pelo autor. Porém, os conceitos que suportam tais ideias são oriundos de trabalhos de grandes pesquisadores e estudiosos, sobretudo do renomado físico David Bohm, autor de livros como “On Dialogue” e “Wholeness and the Implicate Order”, entre vários outros.

O trabalho de Bohm está fundamentado, entre outras ideias, na premissa de que a base ou essência do Cosmos não é composta de partículas elementares, mas trata-se de puro processo, um fluído movimento do todo, ou seja, Bohm tinha plena convicção de que o Universo todo está intrinsecamente conectado. Para ele, os seres humanos possuem uma capacidade nata para a inteligência coletiva, podendo aprender e pensar juntos e assim coordenar ações de forma efetiva para a modelar o futuro.

Jaworki discorre sobre suas reflexões e descobertas a partir das conversas que manteve com o próprio Bohn, bem como com diversos outros cientistas e estudiosos que trabalharam com ele ou que formam de alguma forma influenciados por suas ideias.

Como resultado de sua longa e profunda jornada, Jaworski formulou quatro princípios que endereçam as questões fundamentais por ele apresentadas, a saber:

1. O universo possui uma característica aberta e emergente;

2. O universo é um todo indivisível; tanto o mundo material quanto a consciência fazem parte de um todo indivisível;

3. Existe uma Fonte criativa de infinito potencial no universo;

4. Os seres humanos podem aprender a criar a partir do infinito potencial da Fonte, desde que decidam seguir um disciplinado caminho rumo à auto-realização e ao amor, esta que é a mais poderosa energia no universo.

Não tenho aqui a pretensão de abordar todas as ideias e conceitos presentes neste livro, até mesmo porque, tenho que confessar, minha compreensão sobre vários deles ainda é parcial e limitada. Contudo, não tenho receio em afirmar que se trata de uma obra revolucionária e que se propõe a desbravar um território pouquíssimo explorado no campo da liderança e da ação humana.

Grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “The Happiness Manifesto: how nations and people can nurture well-being” de Nic Marks

Caríssimos,

em 2010 o Senador Cristovam Buarque apresentou uma Proposta de Emenda a Constituição (PEC 19/10), a qual visa alterar o artigo 6˚ da Constituição, passando a explicitar que os direitos sociais, já expressos na nossa Carta Magna, são essenciais à busca da felicidade. Esta PEC, que foi motivo de piada na mídia nacional e recebeu várias críticas negativas de boa parte da sociedade, está fortemente relacionada a um livro que li recentemente, entitulado “The Happiness Manifesto”.

Em sua essência, o livro questiona, de forma veemente, o pressuposto de que a felicidade e o bem-estar advém exclusivamente da prosperidade financeira, seja para indivíduos ou para nações. Afirma ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) não pode ser considerado como a única fonte de avaliação do progresso de uma nação. Aliás, o autor Nic Marks chama a atenção para os impactos sociais e ambientais de uma sociedade que, na ânsia de fazer crescer o PIB, fomenta nas pessoas o desejo de “gastar um dinheiro que não possuem, em coisas que não precisam, para impressionar pessoas com as quais não se importam”.

Em lugar do PIB, ou pelo menos de forma complementar a ele, o autor propõe que o bem-estar das pessoas passe a fazer parte dos debates que direcionam as políticas públicas. Nessa linha é que ele apresenta seu “Manifesto da Felicidade”, o qual, nas suas palavras, “oferece às nações e às pessoas potenciais formas de se mover o foco principal da busca de prosperidade financeira para o crescimento do bem-estar”.

São vários os argumentos apresentados pelo autor para defender seu ponto de vista, dentre os quais destaco:

  • Nosso consumo dos recursos naturais tem crescido num ritmo mais rápido que os ganhos obtidos em nosso bem-estar;
  • As pessoas acolherão melhor a idéia de um futuro sustentável se entenderem que este será um futuro mais feliz;
  • Pesquisas demonstram que pessoas em estados de ânimo positivos são mais flexíveis e mais criativas, aumentam seu nível de atenção e estão mais abertas a construção de relações, ou seja, têm um maior repertório de respostas aos estímulos do dia a dia;
  • Efetivamente, nossas emoções são parte central do nosso mecanismos de sobrevivência. Elas são essenciais para a forma como nos adaptamos às mudanças, como encaramos os desafios e as oportunidades e como solucionamos os problemas;
  • Existem fortes indícios de que pessoas mais felizes são mais bem sucedidas em todos os domínios de suas vidas, além de contribuírem mais para a sociedade;

Por fim, o autor propõe cinco formas para se elevar o bem estar pessoal, bem como sete estratégias para se aprimorar o bem estar coletivo das nações:

  • Bem estar pessoal:
    1. Conecte-se… com as pessoas ao seu redor. Com sua família, amigos, colegas e vizinhos. Em casa, no trabalho, na escola ou em sua comunidade. Pense nessas relações como os pilares de sua vida e invista tempo no seu desenvolvimento. A construção dessas conexões irá te dar suporte e aprimorar sua qualidade de vida no dia a dia;
    2. Seja ativo… saia para caminhar ou para correr. Pedale, jogue, cuide do jardim, dance. A atividade física faz você se sentir bem. E o mais importante, descubra uma atividade física que você goste e que combine com seu nível de mobilidade e condicionamento;
    3. Perceba… seja curioso. Capte os sinais de beleza e dê atenção para aquilo que não é comum. Note a mudança das estações do ano. Aprecie o momento, seja quando estiver indo para o trabalho, comendo um lanche ou conversando com os amigos. Esteja consciente do mundo ao seu redor e do que você está sentindo. A reflexão sobre suas experiências irá ajudá-lo a aproveitar melhor o que realmente importa para você;
    4. Mantenha-se aprendendo… tente algo novo. Redescubra uma antigo interesse. Inscreva-se em um curso. Assuma uma nova responsabilidade no trabalho. Conserte sua bicicleta. Aprenda a tocar um instrumento ou a cozinhar seu prato predileto. Estabeleça um desafio que você deseje superar. Aprender coisas novas tornará você mais confiante, além de ser divertido;
    5. Doe-se… faça algo bom para um amigo ou mesmo para um estranho. Agradeça alguém. Sorria. Seja voluntário no seu tempo livre. Se junte a um grupo da comunidade. Olhe para dentro e para fora. Ver a você mesmo e à sua felicidade, ligados a uma comunidade mais ampla pode ser incrivelmente recompensador e cria fortes conexões com as pessoas ao seu redor.
  • Bem estar das nações:
    1. Criação de bons empregos;
    2. Reforma dos nossos sistemas financeiros;
    3. Desenvolvimento de escolas florescentes;
    4. Promoção da saúde completa;
    5. Engajamento dos cidadãos;
    6. Construção de boas fundações;
    7. Medir o que realmente importa.

Trata-se de uma leitura instigante e que nos leva a refletir sobre os propósitos de nossas vidas e sobre a forma como temos conduzido nossas ações, bem como sobre os resultados que temos obtido, tanto no contexto pessoal, quanto como sociedade.

Será que a busca incessante pelo lucro e pelo crescimento (exclusivamente) econômico tem nos trazido bem estar e felicidade? Quais as consequências de nosso atual modo de vida para o planeta? O que realmente nos importa e nos faz felizes???

Que possamos refletir profunda e sinceramente sobre essas e outras questões e, juntos,  buscarmos evoluir constantemente nossa compreensão acerca da complexa teia da vida, bem como aprimorarmos nossa capacidade de ação, individual e coletiva, aplicando nossas competências em prol do bem estar coletivo e de uma vida mais feliz.

grande abraço,

Marcelo Mello

Resenha do livro “Sincronicidade, o caminho interior para a liderança” de Joseph Jaworski

Caríssimos,

Durante a fascinante jornada do meu Mestrado e, sobretudo, da construção da minha dissertação, me deparei com muitos livros e artigos profundamente interessantes e inspiradores e, certamente, um dos que mais me influenciou foi o livro “Sincronicidade, o caminho interior para a liderança” de Joseph Jaworski.

Eu já havia tido contato com as idéia de Jaworski quando li o instigante livro “Presença”, escrito por ele, Peter Senge, Betty Sue Flowers e Otto Scharmer (obra sobre a qual oportunamente escreverei por aqui). Aliás, “Sincronicidade” já começa com uma brilhante introdução escrita por Peter Senge, na qual ele afirma, entre outras coisas, que este livro é leitura obrigatória para qualquer pessoa que leve a liderança a sério. Senge apresenta ainda seu entendimento de que vivemos em um mundo de possibilidades e que é necessário substituir os tradicionais e rígidos modelos mentais mecânico-newtonianos por uma visão de mundo que privilegie o comprometimento e o protagonismo para com a vida. É neste contexto que Senge introduz o termo Sincronicidade, apresentando-o como um resultado de uma nova forma de pensar sobre a vida e seus fenômenos.

Para conceituar o que vem a ser a Sincronicidade, Jaworki recorre às idéias de  C. Jung em sua clássica obra “Sinchronicity: An Acausal Connecting Principle”, na qual o autor define a sincronicidade como “uma coincidência significativa de dois ou mais eventos em que algo mais do que a probabilidade do acaso está envolvida”. O livro de Jaworki explora as distinções e conceitos relacionados à Sincronicidade no contexto de sua própria história de vida, iniciando por sua bem sucedida (porém carente de significado) carreira de advogado, passando pelo quiebre de seu divórcio do primeiro casamento e descrevendo então a profunda jornada de auto-conhecimento e transformação de seus modelos mentais que o levaram a “jogar tudo para o alto” e seguir em busca da construção e consolidação do American Leadership Forum, sua contribuição para o futuro que, como ele veio a descobrir, ansiava por emergir.

Ao longo de sua jornada, Jaworki relata alguns encontros “mágicos” (pontuados como evidências da Sincronicidade) com pessoas que o ajudaram e inspiraram na compreensão e concretização de sua missão. Dentre tais encontros, ele destaca suas conversas com David Bohm, John Gardner e Francisco Varela, as quais foram poderosas forças catalisadoras para a continuidade do seu trabalho.

Jaworski apresenta também o que ele chama de armadilhas, ou nas suas próprias palavras, “qualquer coisa que cause um retrocesso à velha forma de pensar e agir, retardando assim nosso desenvolvimento como parte do processo generativo em desdobramento”.

A primeira armadilha é a da Responsabilidade, a qual nos leva a sentirmo-nos responsáveis por tudo e por todos que estão envolvidos em nossos projetos, ou seja, trata-se de uma supervalorização do nosso papel no processo em curso. Esse senso de responsabilidade excessiva acaba por afetar nossa produtividade e limitar nossa capacidade de atuação.

A segunda armadilha identificada pelo autor é a da Dependência, a qual nos leva a acreditarmos que todo o processo depende de algumas pessoas ou processos-chave e que se esses elementos não estiverem presentes, tudo estará perdido. Para superar essa armadilha, Jaworski afirma que é preciso focar no resultado e não ficar preso a nenhum processo ou pessoa em particular para alcançá-lo, ou seja, é preciso ter flexibilidade diante dos obstáculos. Ele afirma ainda que tanto a armadilha da responsabilidade quanto a da dependência surgem a partir do medo de não haverem alternativas. Todavia, sempre existem alternativas, nós é que, muitas vezes, não somos capazes de enxergá-las.

Jaworski apresenta ainda uma terceira armadilha, a da hiperatividade. Essa armadilha consiste no risco de nos perdermos em meio ao grande volume de atividades e compromissos gerados pelo processo que estamos conduzindo e, dessa forma, nos desconectarmos de nosso propósito original.

Uma das principais mensagens desta obra de Jaworski é a de que a liderança consiste em descobrirmos como podemos moldar coletivamente o nosso futuro. Ainda segundo ele, “a liderança diz respeito à criação, dia a dia, de um domínio no qual nós e os que se encontram ao nosso redor continuamente aprofundemos nossa compreensão da realidade e sejamos capazes de participar da formação do futuro”.

Caros amigos, “Sincronicidade” é um livro poderoso, cheio de conceitos e distinções que nos instigam e que desafiam a visão de mundo tradicional e fragmentada. Compartilho da opinião do grande Peter Senge de que está é, sem dúvida, uma obra obrigatória para todos aqueles que levam a sério o tema da Liderança ou que, de alguma forma, desejam contribuir para a construção de um futuro melhor.

grande abraço,

Marcelo Mello