As emoções

Caros amigos,

segundo a Ontologia da Linguagem, o ser humano é constituído por três pilares fundamentais, os quais estão em constante busca por coerência entre si: A linguagem, o corpo e as emoções.

A linguagem, para além de seu caráter descritivo, possui uma capacidade geradora, capaz de criar novas realidades e, desta forma, nos possibilita a construção de novos mundos e do nosso próprio ser, a partir do nosso fazer/agir.

Nosso corpo, por sua vez, também reflete quem somos, nossa história, feridas, experiências e modelos mentais. Nosso corpo expressa de maneira clara e natural o significado que atribuímos a cada situação que vivenciamos, cada conversa em que tomamos parte e cada pensamento que nos toma.

Por fim, o domínio da emocionalidade está presente em toda a ação humana, da mais simples à mais complexa. Somos constantemente arrebatados pelas mais variadas emoções, mesmo que algumas delas não sejam tão claramente reconhecíveis.

O grande mestre Humberto Maturana afirma que as emoções são predisposições para a ação e, neste sentido, aquilo que sentimos influi diretamente em nosso modo de agir. Por outro lado, nossos sentimentos também são resultado de nossas ações e, dessa forma, temos um vínculo bastante estreito entre ação e emoção.

A busca pela coerência é a principal característica integradora dos três domínios constitutivos do ser humano: Linguagem, Corpo e Emoção. O que quer que ocorra em um destes domínios, seguramente afetará dos demais. Neste sentido é que Rafael Echeverria argumenta ser razoável esperar que transformações produzidas em um determinado domínio se traduzam em modificações nos demais, a fim de se resguardar a coerência entre eles.

Outro aspecto muito importante acerca das emoções é que nós não temos a capacidade de escolher sentir ou não determinada emocionalidade, contudo, podemos sim escolher como iremos agir diante de uma determinada emoção que me invade. Leonardo Wolk nos lembra que “ao assumir a responsabilidade diante das nossas emoções, também estamos responsabilizando-nos perante o mundo.”

Gostaria de encerrar este post compartilhando um singelo, porém profundo, conto sobre as emoções, retirado do livro “Coaching, a arte de soprar brasas” de Leonardo Wolk:

As emoções

Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades do ser humano.

Quando o tédio já tinha bocejado pela terceira vez, a loucura, como sempre tão louca, lhe propôs: vamos brincar de esconde-esconde?

A intriga levantou a sobrancelha intrigada e a curiosidade, sem poder se conter, perguntou:

-De esconde-esconde… e como é isso?

– É uma brincadeira – explicou a loucura – na qual eu tapo o rosto e começo a contar até um milhão enquanto vocês se escondem. E assim que eu tenha terminado de contar, o primeiro de vocês que encontre irá ocupar meu lugar para continuar a brincadeira.

O entusiasmo dançou acompanhado pela euforia, a alegria deu tantos saltos que acabou por convencer a dúvida incluindo a apatia, a quem nunca interessava nada.

Mas nem todos quiseram participar… a verdade preferiu não se esconder; para quê? Se no final ela sempre era dita, e a soberba achou que era um jogo muito bobo (mas no fundo o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela) e a covardia preferiu não se arriscar…

– Um, dois, três… – a loucura começou a contar.

A primeira a se esconder foi a preguiça, que, como sempre, deixou-se cair atrás da primeira pedra do caminho. A fé subiu aos céus e a inveja se escondeu por trás da sombra do triunfo, que com seu próprio esforço havia conseguido subir na copa da árvore mais alta. A generosidade quase não conseguia se esconder, cada lugar que via lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos…

– O quê? Um lago cristalino? Ideal para a beleza.

O quê? A fenda de uma árvore? Perfeito para a timidez.

O quê? O voo de uma mariposa? Ideal para a voluptuosidade.

O quê? A rajada do vento? Magnífico para a liberdade.

E assim a generosidade terminou por se esconder em um raiozinho de sol.

O egoísmo, ao contrário, encontrou um lugar muito bom desde o início, cômodo, ventilado… mas só para ele. A mentira se escondeu no fundo dos oceanos (mentira, na verdade se escondeu atrás do arco-íris) e a paixão e o desejo no centro dos vulcões.

O esquecimento… eu esqueci onde se escondeu… mas isso não é importante.

Quando a loucura contava 999.999, o amor ainda não tinha encontrado um lugar para se esconder, pois todos os lugares se encontravam ocupados, até que avistou um roseiral… e enternecido decidiu esconder-se em suas flores.

Um milhão! – contou a loucura, e começou a procurar. A primeira a aparecer foi a preguiça, a apenas três passos de uma pedra.

Depois, escutou-se a fé discutindo com Deus nos céus sobre zoologia…

A paixão e o desejo foram sentidos pelo vibrar dos vulcões. Em um descuido, encontrou a inveja e, claro, pôde deduzir onde estava o triunfo.

Nem teve de procurar o egoísmo. Ele mesmo saiu em disparando de seu esconderijo, que no final acabou por ser um ninho de vespas.

De tanto caminhar, sentiu sede e, ao se aproximar do lago, descobriu a beleza.

Com a dúvida, acabou sendo mais fácil ainda, porque a encontrou sentada sobre um cerca sem conseguir decidir de que lado se esconderia.

Assim foi encontrando todos. O talento entre a relva fresca, a angústia em uma caverna escura, a mentira atrás do arco-íris (mentira, ela estava mesmo no fundo do oceano)… e o esquecimento… que já havia esquecido que estavam brincando de esconde-esconde.

Mas o amor não aparecia em lugar nenhum.

A loucura procurou atrás de cada árvore, debaixo de cada pedregulho do planeta, em cima das montanhas… e, quando estava se dando por vencida, avistou um roseiral e as rosas… pegou um forquilha e começou a mexer nos ramos, quando de repente se escutou um grito doloroso.

Os espinhos haviam ferido os olhos do amor; a loucura não sabia o que fazer para se desculpar. Chorou, pediu, rogou, implorou perdão e, como castigo, prometeu até ser seu guia.

Conta a lenda que desde então, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na terra, o amor é cego… e a loucura sempre o acompanha.

um grande a fraternal abraço,

Marcelo Mello

Ontologia da Linguagem – Quando não sabemos o que fazer só nos resta aprender

Caros amigos,

revendo algumas anotações efetuadas quando da leitura da obra Ontología del Lenguaje de Rafael Echeverría, me deparei com o destaque a um trecho bastante profundo e ao mesmo tempo direto acerca do processo de aprendizagem no contexto da Ontologia da Linguagem:

“¿Qué acción podemos empreender cuando no sabemos qué acciones realizar? Podemos aprender. Podemos ejecutar la acción de ampliar nuestra capacidad de acción. El aprendizaje es una de las más importantes formas de alejar a las personas de la resignación. El aprendizaje hace que parezca alcanzable lo que pudo parecer imposible. A través del aprendizaje transformamos nuestros juicios de facticidade en juicios de posibilidad.”

“Que ação podemos empreender quando não sabemos que ações realizar? Podemos aprender. Podemos executar a ação de ampliar nossa capacidade de ação. A aprendizagem é uma das mais importantes formas de afastar as pessoas da resignação. A aprendizagem faz com que pareça alcançável o que pode parecer impossível. Por meio da aprendizagem transformamos nossos juízos de faticidade em juízos de possibilidade.”

extraído do livro Ontología del Lenguaje de Rafael Echeverría com tradução livre deste blogueiro.

Aprender mais, aprender sempre, eis o caminho para ampliar nossa capacidade de ação em um mundo que nos exige cada vez mais respostas para perguntas cada vez mais complexas.

grande abraço,

Marcelo Mello

Ontologia da Linguagem – O que é uma organização?

Amigos,

sob o olhar da Ontologia da Linguagem, Rafael Echeverría nos brinda com uma caracterização do que vem a ser uma organização, a qual considero a mais interessante que já tive oportunidade de ver e que tenho o satisfação de compartilhar com vocês:

“…uma organização é mais do que um espaço gerado por limites declarativos nos quais as pessoas estão unidas por uma rede de promessas mútuas. Uma organização é também um espaço no qual se nutre uma determinada cultura, um espaço no qual as pessoas compartilham um passado, uma forma coletiva de fazer as coisas no presente e um sentido comum de direção para o futuro.”

extraído do livro Ontología del Lenguaje, de Rafael Echeverría, pág. 265. (tradução livre deste humilde blogueiro)

Grande abraço e até o próximo post,

Marcelo Mello

A empresa emergente – O ser humano e a linguagem

“Para existir, o ser humano tem que ser capaz de conferir sentido à vida. Deve estar em condições de alimentar permanentemente o juízo de que sua existência ‘tem sentido’…

Sob essa mesma perspectiva, a verdade não é senão um caminho, um deslocamento permanente, nunca um lugar ao qual se possa chegar para ficar.
Heidegger * sustenta que essa forma particular de ser, que somos seres humanos, está fundada na linguagem. É nossa capacidade de linguagem que determina que tenhamos essa forma particular de ser e a existência que lhe corresponde. A linguagem, diz Heidegger, ‘é a morada do ser’. É graças à linguagem que o ser humano se interroga, pergunta por seu ser e iniciar a busca do sentido. A linguagem lhe permite entrar em conversação consigo mesmo e com os outros. Somos uma conversação, nos diz Heidegger. No fundo dessa conversação está sempre o problema do ser do qual todo ser humano se vê obrigado a carregar. A linguagem é o que faz humanos os seres humanos.”

extraído do livro “A empresa emergente” de Rafael Echeverría, pág. 96.

heidegger* O filósofo alemão Martin Heidegger, falecido em 1976, foi um dos mais influentes pensadores do século XX. Abandonando a teologia, mergulhou nos gregos para tentar encontrar neles a substância que de alguma forma amparasse o homem contemporâneo num mundo desesperançado de Deus. Erguendo-se contra a tradição metafísica, voltou-se para o ser (ontologia), procurando encontrar um norte num cenário onde os valores da religião e da metafísica haviam sido abalados até as suas raízes. (fonte: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/heidegger.htm)