O que dá sentido ao texto…

Meus amigos,

se eu tivesse que resumir meu curso de Mestrado em uma única frase, seguramente ela seria: “o que dá sentido ao texto é o contexto”. A primeira vez ouvi isso foi em uma das aulas iniciais da disciplina de GRO – Gestão de Relacionamentos nas Organizações. Um professor de voz tranquila e olhar sereno (que viria a se tornar meu orientador e melhor amigo) proferiu estas palavras de forma tão simples e natural que, num primeiro momento, eu não dei a devida importância. Contudo, com o passar do tempo e o aprofundar das minhas reflexões, compreendi o quão poderosa é esta sentença, dadas todas as possibilidades que ela encerra.

Entre o que alguém fala e o que outro escuta, existe uma lacuna significativa (por vezes, um abismo) que impõe severos riscos à efetividade das conversações. Uma das formas para se tentar diminuir tal lacuna é por meio da construção de um contexto compartilhado, no qual as informações intercâmbiadas possam encontrar amparo.

“O fenômeno da comunicação não depende daquilo que se entrega, mas sim do que se passa com quem recebe. E isto é algo muito diferente do que a mera transmissão de informação.” (Humberto Maturana)

O ambiente organizacional é predominantemente conversacional. Em um nível mais operacional, são constantes as determinações, orientações, direcionamentos, feedbacks e esclarecimentos fornecidos pelos gestores a seus colaboradores. Da mesma forma, são abundantes os pedidos, ofertas, sugestões e reclamações, dos membros da equipe para seus gestores. Para que este constante fluxo de comunicação seja efetivo, ou seja, produza os resultados desejados tanto para a organização quanto para seus indivíduos, é fundamental que as informações façam sentido e, para isso, o contexto é imprescindível. Sem um contexto adequado, a chance de que uma interação venha a produzir resultados indesejados, gerando o que comumente chamamos de “ruídos de comunicação”, é muito grande.

Se analisarmos esta questão num plano mais estratégico, a existência de um contexto compartilhado claro e bem definido se torna ainda mais crucial para a existência da organização, na medida em que a vivência de seu propósito (razão de existir) e o engajamento na busca de seus objetivos estratégicos, por parte das pessoas que a compõem, dependem fundamentalmente da geração de sentido. A motivação (motivo para a ação) somente virá, com a potência necessária, se as pessoas compreenderem para onde estão indo e porque é importante ir naquela direção. É justamente isso que um contexto adequadamente compartilhado pode ajudar a clarificar.

Dedicar-se a construção de contextos compartilhados suficientemente poderosos para tornar efetivas as conversações, sejam elas operacionais ou estratégicas, deve ser uma preocupação cotidiana dos líderes em todos os níveis hierárquicos. Neste sentido, é imprescindível cuidar com extremo zelo do que se diz e do que se faz, a todo instante. Incoerência, desrespeito, confusão, desatenção, falta de reconhecimento, entre outras posturas, além de totalmente inadequadas, são verdadeiros pecados capitais, que minam a confiança nas relações e destroem (rapidamente) qualquer possibilidade de existência de um contexto adequado para suportar as interações e a coordenação de ações entre os diversos atores do cenário organizacional.

As pessoas, sobretudo nesta era do conhecimento e de profunda transformação digital que vivemos, demandam por sentido, propósito e valorização. Se tais demandas não forem adequadamente atendidas, dificilmente as organizações conseguirão que seus times superem os complexos desafios de nosso tempo e construam o futuro do qual elas dependem para prosperar.

Feliz Natal,

Marcelo Mello

As competências conversacionais a serviço do Gerenciamento de Projetos

Caríssimos amigos,

a mais recente edição da revista Mundo Project Management (Ago/Set 2010) traz, entre seus destaques, um artigo escrito pelo Prof. Dr. Gentil Lucena, detentor de um currículo invejável e de uma longa e mui frutífera trajetória como pesquisador nas áreas de coaching, gestão do conhecimento, aprendizagem organizacional e, sobretudo, competências conversacionais. Essa verdadeira personalidade, conhecida nacional e internacionalmente (e que me concedeu o incomensurável privilégio de ser o orientador da minha Dissertação de Mestrado no programa em Gestão do Conhecimento e de TI da Universidade Católica de Brasília), escreveu um artigo fantástico, demonstrando como as competências conversacionais são, de fato, a tecnologia social que constitui e impulsiona as organizações e seus projetos.

Utilizando um referencial teórico extremamente consistente, bem como uma efetiva análise prática do cenário organizacional, o artigo caracteriza as próprias organizações (e os projetos) como “redes dinâmicas de conversações” e demonstra que tanto a Gestão, de forma geral, quanto, mais especificamente, a Gestão do Conhecimento e a Gestão de Projetos podem ser vistas como formas de gestão de processos conversacionais.

“… para assegurar processos efetivos, eficazes e eficientes, é necessário avaliar também a maneira como distintos trabalhos individuais se coordenam e reconhecer que essa coordenação de ações é um processo tipicamente conversacional. Pessoas coordenam trabalhos individuais conversando! Esse fenômeno tem sido reconhecidamente assinalado na literatura como uma das áreas de maior potencial para elevar o desempenho das organizações.”

O autor discorre ainda sobre várias distinções relativas às conversações, demonstrando o quão vasto é o território a ser explorado em torno desse tema e, por fim, conclui afirmando que não há que se pensar em bons projetos sem a presença das competências conversacionais.

Vale muito a pena comprar a revista Mundo PM e curtir na íntegra este belíssimo artigo, além de vários outros textos muito úteis sobre Gestão de Projetos.

Hoje não tenho nenhuma dúvida acerca do enorme potencial das conversas nas organizações e na vida, como um todo. É por meio das conversas que moldamos e concretizamos o nosso futuro e é por meio delas que nos constituímos nos seres que somos. Foi essa crença que me levou a eleger as Competências Conversacionais como tema de minha dissertação, buscando investigar sua relação com outro aspecto crucial para as organizações: a liderança.

Espero, com a ajuda do Prof. Gentil e de vários outros membros do recém constituído LABCON (Laboratório de Conversas da Universidade Católica de Brasília), contribuir para o avanço das pesquisas sobre as conversas e seus impactos na vida das organizações.

grande abraço e boa leitura,

Marcelo Mello

As conversas e a nova economia

Caríssimos,

dando sequência a meus estudos para confecção de minha dissertação, me deparei com uma frase de Alan Webber que caracteriza muito bem o fundamental papel das conversações na construção de um futuro que queremos fazer emergir:

“Na nova economia, administrar exige não apenas uma mudança de programas, mas mudança de atitude mental… as conversações são o modo pelo qual os trabalhadores descobrem o que sabem, compartilham-no com seus colegas e, no processo, criam novo conhecimento para a organização. Na nova economia, as conversações são a forma mais importante de trabalho.”

Alan Webber (1993),

“What’s so new about the new economy?”

Harvard Business Review

Cada vez mais vejo ganhar força em mim a convicção de que também a liderança pode ser melhor edificada por meio das conversas, sobretudo se essa liderança for compartilhada entre todos aqueles que, de uma forma ou de outra, podem e querem contribuir para o avanço de suas organizações, independentemente de sua posição hierárquica.

grande abraço,

Marcelo Mello

O poder das conversações

Olá amigos,

eis-me aqui novamente, depois de um longo período de silêncio. Estive (e estou) bastante envolvido com minha dissertação de mestrado, mais precisamente com o documento de qualificação da minha pesquisa e acabei me afastando um pouco deste espaço que tanto estimo. Como uma pequena compensação por minha prolongada ausência, dei uma renovada no visual do blog – espero que gostem – e trago a vocês hoje um belo trecho de um dos livros que estou lendo, “O World Café”, de Juanita Brown e David Isaacs, mas que é, na verdade, uma citação de um texto de Humberto Maturana e P. Bunnell, entitulado “Biosphere, Homophere, and Robosphere: what has that to do with business?“:

“Tudo o que nós, seres humanos, fazemos, fazemos em conversação… Na medida em que vivemos em conversação, novos tipos de objetos continuam a aparecer e quando nos apoderamos destes objetos e vivemos com eles, novos domínios da existência aparecem! Assim estamos aqui agora, vivendo com estes tipos muito engraçados de objetos chamados firmas, companhias, lucro, rendas e assim por diante. E somos muito apegados a eles… Exatamente do mesmo modo, não estamos necessariamente presos a nenhum dos objetos que criamos. O que é peculiar nos seres humanos é que nós podemos refletir e dizer: ‘Oh, não estou mais interessado nisso’, mudar nossa orientação e começar uma nova história. Os outros animais não podem refletir, uma vez que não vivem na linguagem. Nós somos aqueles que fazem da linguagem e da conversação nossa maneira de viver… Nós gostamos dela, acariciamos uns aos outros na linguagem. Também podemos ferir uns aos outros na linguagem. Podemos abrir espaços ou restringi-los na conversação. Isso é essencial para nós. E desenhamos nosso próprio caminho, como o fazem todos os sistemas vivos.”

(Maturana e Bunnell, 1999, p.12. Disponível em http://www.solonline.org/res/wp/maturana/index.html)

A ideia de que construímos o mundo em que vivemos por meio de nossas conversações é um dos pilares da minha dissertação, uma vez que pretendo pesquisar a relação entre as Competências Conversacionais e o exercício da Liderança. Creio, cada vez mais, no poder das conversas e em sua peculiar capacidade de acessar a inteligência coletiva e fazer emergir o futuro que desejamos.

grande abraço e excelentes conversas a todos,

Marcelo Mello