Resenha do livro “El caballero de la Armadura Oxidada”

FISHER, Robert. El Caballero de la Armadura Oxidada. 47. ed. Barcelona, Obelisco, [2000]. 51 p.

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Este livro, escrito por Robert Fisher e que me foi indicado pelo Prof. Dr. Gentil Lucena na disciplina de GRO – Gestão dos Relacionamentos nas Organizações, é simples, porém encantador. Nele, o autor nos conta a história de um cavaleiro que acreditava ser bom, generoso e amoroso e que ostentava sua brilhante armadura sempre que partia para suas cruzadas, o que fazia com imensa freqüência. Esse cavaleiro, que vivia em um belo castelo com sua linda esposa e seu querido filho, com o passar do tempo,  se afeiçoou tanto a sua reluzente armadura que passou a utilizá-la o tempo todo, até mesmo para dormir e para comer. Após algum tempo, sua esposa, cansada de todos os inconvenientes que aquela carcaça de metal causava, deu-lhe um ultimato: ou ele tirava sua armadura, ou ela e o filho o abandonariam.

Pressionado por essa situação, o cavaleiro cede e decide retirar sua bela armadura, porém, nesse momento, descobre-se incapaz de arrancá-la de seu corpo. Após várias tentativas sem sucesso, o desesperado cavaleiro resolve viajar para terras distantes em busca de alguém que seja capaz de ajudá-lo a livrar-se de sua armadura. Nessa jornada, ele encontra o mago Merlin que, juntamente com a pomba Rebeca e um Esquilo, o introduzem e acompanham em uma jornada de reflexão e autoconhecimento pelo Caminho da Verdade (Sendero de la Verdad). Para chegar ao fim desse difícil caminho, o cavaleiro tem de passar por três castelos: o Castelo do Silêncio, o Castelo do Conhecimento e o Castelo da Vontade e da Ousadia. Em cada deles, o cavaleiro se depara com reflexões e situações que o fazem reavaliar suas atitudes, crenças, pressupostos, enfim, revisar toda sua vida até aquele momento.

Chegando ao Castelo do Silêncio, nosso cavaleiro, ao se ver obrigado a enfrentar toda a solidão do silêncio, dá-se conta de que sempre tivera medo de ficar sozinho e de que ao longo de sua existência, nunca havia se permitido desfrutar do momento presente ou escutar verdadeiramente os sons da natureza, nem tampouco tinha se dedicado a escutar sua esposa, em especial quando ela o procurava para compartilhar com ele seus sentimentos. Imerso nesse mar de descobertas e novas emoções, o cavaleiro pôde, finalmente, encontrar seu verdadeiro Eu e, dessa forma, completar sua passagem pelo Castelo do Silêncio. Estando novamente no Caminho da Verdade, nosso cavaleiro percebe-se agora sem o elmo de sua armadura, que havia enferrujado e caído diante das muitas lágrimas derramadas por ele em sua estada no Castelo do Silêncio.

Continuando sua jornada pelo Caminho da Verdade, nosso intrépido cavaleiro chega ao Castelo do Conhecimento, no qual, ao contrário do Castelo do Silêncio em que teve de adentrar sozinho, ele conta agora com a companhia da pomba Rebeca e do Esquilo. Isto porque, segundo o Esquilo, “O silêncio é para um; o conhecimento é para todos”. Uma vez dentro do Castelo do Conhecimento, o cavaleiro encontra uma densa escuridão e se depara com uma série de inscrições brilhantes em suas paredes. À medida que ele se dedica a refletir sobre cada uma dessas inscrições, as quais o remetem às suas crenças mais profundas e a seus pressupostos mais arraigados, o Castelo vai se iluminando. Nesse processo, o cavaleiro descobre que havia necessitado do amor de sua esposa e de seu filho mais do que os havia verdadeiramente amado e compreende que agira dessa forma porque, até então, fora incapaz de amar a si próprio e, por conseguinte, incapaz de amar aos demais. Ainda dentro do Castelo do Conhecimento, ele se defronta com um espelho especial, que não reflete sua mera aparência, mas sim como ele verdadeiramente é e, nesse momento, ele se vê diante do reflexo de uma pessoa encantadora, cujo rosto resplandece de amor, beleza e inocência. Com a ajuda de seus companheiros de jornada, o cavaleiro entende que aquele reflexo representa todo o seu potencial como ser humano, ou seja, tudo o que ele poderia ser e ainda não havia sido, porque colocara uma armadura entre ele e seus verdadeiros sentimentos e passara a maior parte de sua vida buscando demonstrar às outras pessoas que era bom, generoso e amoroso, quando, na verdade, não tinha de demonstrar nada a ninguém. O cavaleiro aprendeu ainda a diferença entre a ambição que vem da mente, que nos serve para conseguir única e tão somente bens materiais, e a ambição que vem do coração, que é pura e nos leva ao desenvolvimento de todo o nosso potencial individual em benefício de todos. Diante disso, o cavaleiro declara que, a partir de então, todas as suas ambições viriam do coração e, naquele momento, o castelo desaparece e ele se vê novamente no Caminho da Verdade, percebendo que as partes da armadura que cobriam suas pernas e braços também haviam enferrujado e caído.

Por fim, nosso cavaleiro chega ao Castelo da Vontade e da Ousadia, onde, logo na porta de entrada, se depara com um Dragão totalmente diferente de todos os que ele já havia enfrentado ao longo de sua longa vida de cavaleiro: o Dragão do Medo e da Dúvida. Após algumas tentativas frustradas e uma boa dose de hesitação, nosso cavaleiro, contando com o apoio moral da pomba Rebeca, do Esquilo e de seu verdadeiro Eu, decide enfrentar o Dragão, confiando que o conhecimento adquirido ao longo do Caminho da Verdade seria suficiente para a derrotar aquela terrível criatura. Com essa crença, o cavaleiro segue ao encontro do Dragão, que apesar de toda sua ira, não consegue feri-lo e vai diminuindo de tamanho à medida que o cavaleiro avançava em sua direção até que desaparece por completo. Após essa verdadeira demonstração de vontade e ousadia, o castelo desaparece, deixando novamente livre o caminho a sua frente.

Os últimos passos do Caminho da Verdade eram extremamente íngremes e, a poucos metros do fim, o cavaleiro, tendo um profundo abismo atrás de si, encontra uma rocha que impede sua passagem e nela a seguinte inscrição: “Ainda que eu possua o Universo, nada possuo, pois não posso conhecer o desconhecido se me agarro ao conhecido”. Após refletir um pouco sobre essas palavras, o cavaleiro se dá conta de que havia se agarrado a várias coisas conhecidas ao longo de sua vida: sua identidade, suas crenças e seus juízos e, por fim, ele entende que, assim como precisava se desprender dessas coisas, também necessitava se soltar da rocha na qual estava agarrado, mesmo que isso significasse cair no assustador abismo atrás de si. E assim, ele se soltou, e deixo-se cair enquanto, pela primeira vez, contemplava sua vida com clareza e sem desculpas, aceitando a responsabilidade por suas atitudes e reconhecendo que ele próprio era a causa de seus infortúnios e não uma mera vítima do acaso. Isto lhe deu uma inédita sensação de poder que dissipou todo o medo que o dominava até então. Ao vivenciar tudo isso, o cavaleiro sentiu que não mais estava caindo, mas sim subindo e, repentinamente, ele se viu de pé em cima da montanha, no fim do Caminho da Verdade e completamente livre da armadura que, por tanto tempo, o impedia de se conectar à sua família, à natureza, a si mesmo, enfim, à vida.

Considerações finais:

Apesar de sua simplicidade e até mesmo ingenuidade, minha percepção é que esse é um livro que vale a pena ser lido. Ao concluir sua leitura, foram várias as reflexões que inquietaram-me e levaram-me a avaliar minhas atitudes e os impactos que minha “armadura” tem causado sobre mim e sobre as pessoas com as quais convivo. A insólita história do bom, generoso e amoroso cavaleiro exerceu sobre mim um misterioso e fascinante poder que me levou a questionar meus pressupostos e desestabilizou algumas de minhas “sólidas” crenças pessoais.

Quem sabe, se observarmos com atenção a saga de nosso querido cavaleiro e a vasta gama de sentimentos que ele experimentou ao longo de seu caminho, possamos então iniciar um processo de oxidação das pesadas armaduras que nos impedem de sermos tudo o que efetivamente podemos ser: seres humanos plenos de sinceridade, alegria, coragem, ousadia e, principalmente, amor.

Grande abraço (com uma armadura um pouco mais leve),

Marcelo Mello

Versão revisada com o apoio do Prof. Dr. Gentil Lucena Filho

É conversando que a gente aprende

“As conversas nas organizações não são uma perda de tempo, como pensam alguns, mas sim uma semeadura, visando uma colheita de algo diferente, algo maior do que alardeia o raso senso comum, algo capaz de endereçar as complexas questões que emergem dos novos modelos de interação presentes em uma humanidade cada vez mais globalizada, interconectada e mutante”.

Marcelo Mello

Refletindo sobre os impactos da Gestão do Conhecimento

“A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena conquistar essa liberdade. Dentro desta sociedade, que é igualitária porque é próprio do trabalho nivelar os homens, já não existem classes nem uma aristocracia de natureza política ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restauração das outras capacidades do homem. Até mesmo presidentes, reis e primeiros-ministros concebem seus cargos como tarefas necessárias à vida da sociedade; e, entre os intelectuais, somente alguns indivíduos isolados consideram ainda o que fazem em termos de trabalho, e não como meio de ganhar o próprio sustento. O que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única atividade que lhes resta”

citação do livro “A condição humana” de Hannah Arendt, extraída da Tese de Doutorado “Relações entre conhecimento e trabalho no contexto de uma instituição financeira: a experiência no Banco do Brasil” de João Batista Diniz Leite

A vida precisa de pausas.

Olá pessoal,

primeiramente, quero comunicar a vocês que, há uma semana, estou em férias. Passei esta última semana viajando e acabei não escrevendo nenhum post. Tenho que admitir que no início eu estava propenso a escrever, mas acabei decidindo ficar alguns dias “desconectado” e dedicando todo o meu tempo para descansar, passear, jogar conversa fora ou, simplesmente, ficar sem fazer nada. Confesso que, num primeiro momento, isto me pareceu um pouco complicado, desligar-me de todo o aparato digital que nos cerca, mesmo que somente por alguns dias, não foi uma tarefa das mais fáceis, mas com um “pequeno incentivo” de minha esposa eu consegui e gostaria de dizer que foi muito bom.

Recentemente escrevi um post sobre a pane no sistema da empresa Telefônica e comentei sobre como nosso modo de vida é dependente dos sistemas de informação e comunicação (clique aqui para ler). Tal dependência tem, com certeza, uma razão operacional, afinal de contas tais sistemas viabilizam uma infinidade de atividades fundamentais de nossa sociedade. Contudo, acredito que esta dependência tem também um considerável aspecto pessoal, que se origina do hábito que adquirimos de estar 24 horas online. Estamos sempre checando nossas contas de email, visitando nossos cursos online, acessando o home banking, lendo a versão digital de nossos jornais preferidos, trocando mensagens instantâneas ou escrevendo o próximo post de nosso blog pessoal. Não importa exatamente o porque de nossa conexão, mas o fato é que o ritmo frenético do mundo nos condiciona a estarmos sempre ligados, conectados, online.

Há poucos meses atrás, um grande amigo, provavelmente percebendo o ritmo acelerado de minha vida, enviou-me um texto muito interessante chamado “Os domingos precisam de feriados” (clique aqui para ler). Este texto, escrito pelo rabino Nilton Bonder fala fundamentalmente da importância de inserirmos pausas em nossa correria diária e nos convida a refletir sobre o tratamento que damos este bem tão precioso chamado tempo. Após esta última semana, tenho que fazer coro com o rabino Nilton: a vida precisa de pausas, sejam elas longas como umas boas férias ou curtas como uma simples caminhada no parque, mas precisamos inserir pausas em nossas vidas para recarregarmos nossas energias, refletirmos sobre nossas ações, planejarmos nossos próximos passos, ou apenas para respirarmos e então retomarmos, com serenidade e firmeza, nosso jornada tão cheia de desafios. Acredito fortemente que devemos sempre buscar o equilíbrio a fim de que possamos alcançar nossos objetivos sem deixarmos pelo caminho nada que nos seja caro.

Um grande abraço,

Marcelo Mello (ainda em férias)